terça-feira, 12 de fevereiro de 2013


              BRASIL, O PAÍS DAS BOLSAS

                                                          

               – Há países conhecidos pelo trabalho, em que jamais se imaginou alguém viver sem conquistar o sustento através de diária labuta. Há até países em que o povo protesta, se não dispuser do alfazer imprescindível ao próprio sustento e ao da família.

            – Isso deveria ser a norma de todos os povos, pautada pela condenação bíblica: “Comeras o teu pão com o suor do teu rosto.” Não fossem os políticos, e todas as sociedades certamente caracterizar-se-iam por esse princípio, como se vê, inclusive, nas comunidades primitivas, em que vigorava o sistema de trocas de bens.

            – A definição de política, entretanto, não compreende o incentivo à preguiça. Pelo contrário, o ato de administrar a polis implica, também, a administração dos frutos do trabalho dos cidadãos, proporcionando-lhe condiçoões adequadas à subsistência. A política deturpada, demagogica, é que gerou as diferenças sociais e econômicas, redundando no assistencialismo, que visa à angariar os votos necessários à manutenção do poder. Como consequência, o homem não se vê obrigado a trabalhar, uma vez que obtém o de que necessita para subsistir de graça.

            – Trata-se de uma atitude altamente populista, uma vez que sequer no sistema político a que chamaram comunismo, o indivíduo tinha e tem de trabalhar para obter o seu sustento. Esse processo só existe enquanto o político quer se manter no poder, ou conquistá-lo, vez que, quando se está fora dele, o condena, como se veem em vídeos de outras eras.

            – Você tem razão, meu caro. Quando o atual regime era oposição, condenava qualquer tipo de bolsa que mantivesse a maioria da população na ociosidade. Todavia, bastou ascender ao poder para desencadear ondas de bolsas. A primeira, que visa à extinção da miséria, chamou-se bolsa família, que constitui mero engodo para cambalachar votos, uma vez que a miséria não se extingue sem o trabalho.

            – Sem dúvida, Manoel. Essa chamada bolsa família desencadeou outra onda nefasta a que se pode chamar preguiça, pois, depois que ela foi implantada, não se encontra mais ninguém que queira trabalhar.

            – É verdade! Meu cunhado, que mora no campo – não de futebol – disse-me que não há mais ninguém que queira plantar suas terras. Nem, à terça!  

            – Você está certo! Eu me lembro, quando era menino, que todas as terras dos fazendeiros vizinhos às de meu avô eram cultivadas. Hoje, não se vê uma plantação! Primeiro, por causa do êxodo rural; depois, porque não se precisa mais de trabalhar para comer.

            – Se o governo se mantivesse à criação da bolsa família, a depeito de toda desgraça dela advinda, acredito que ele não seria alvo de contundentes críticas; mas a criaçao de outras bolsas, todas visando à manutenção do povo na ignorância, é lamentável e explicável apenas pela gana de poder.

            – Realmente! A bolsa universitária não seria reprovável, se as instituições particulares, a que ela destina pagar as mensalidades, em sua maioria, não oferecesse ensino de péssima qualidade. Mas, segundo me contou um amigo, que foi professor em uma delas, todo o sistema de ensino não passa de uma farsa. Tanto é verdade que a maioria delas, passado o processo de reconhecimento, despede todos os docentes titulados e os substitui por professores apenas graduados. Pelo jeito, até as federais, segundo se observa no novo plano de carreira, também entrarão nesse sistema de fingimento de que se está ensinando, e o aluno, fingindo que está aprendendo, pois desestimula o aperfeiçoamento e a produçao de conhecimento.

            – Sem dúvida, tudo deveria ser sério; mas como ser sério, se o país é carnaval! A comprovação disso pode ser vista na criação da bolsa cultura, quando as verbas a ela destinada poderiam ser utilizadas para compor bibliotecas de escolas e bibliotecas comunitárias que, em vez de serem um bem do indivíduo, seria um bem permanente da coletividade.

            – Como ela se configura, poderá servir até à aquisição de revistas pornograficas e outros tipos de publicações que pouco ou nada encerram de cultura, porque a escolha do conteudo cultural implica conhecimentos ainda não adquiridos pela maioria dos cidadãos a que a bolsa visa.

            – Hilária mesmo é a chamada bolsa novela, constituida pela doação de conversores digitais, a fim de que a população tenha acesso à tv digital. Ora, de que adianta essa iniciativa, se o conteudo da maioria dos canais abertos nada encerra de cultura que realmente eleve o indivíduo a níveis superiores de conhecimento, com a finalidade de proporcionar-lhe ascensão social e economica? Se entendermos cultura como um conjunto de conhecimentos atinentes às artes, às ciências e às filosofias, a fim de refinar e melhorar o cidadão, como adquiri-los em revistas, se elas por eles não se pautam?              

            – Pelas explicaçoes oficiais que pude ler, visam a incentivar o consumismo e a nada mais, além de propiciar uma bela imagem de conteúdos nulos, uma vez que, grosso modo, as novelas não passam de um tipo ópio que poderia ser substituido, de forma muito mais rica, pela leitura de livros tomados emprestado às bibliotecas que existiriam nas comunidades, se realmente as verbas visassem ao aculturamento do povo e, não, à sua manutenção na ignorância, na incapacidade de pensar e discernir o certo do errado.

            – Eh! Meu caro Jovino, o brasileiro precisa, além de comer o peixe, aprender a pescar, a plantar, a produzir, a fim de encontrar o verdadeiro sentido do existir: conquistar a subsistência, já que a substância, a essência do humano, com a impossibilidade de fazer-se e pensar-se, incentivada pelo poder público, jámais conquistará!

– O problema, Aroldo, é que conquista, para o povão, é apenas nome de cidade! E olha lá!

– Exatamente por isso, Ângelo, que dentro dessas bolsas, certamente escondem-se outras bolsas! Miserere nobis, Domine! 
 
Crônica publicada no Diário da Manhã do dia 12-2-2013.

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