terça-feira, 15 de novembro de 2011

OPINIÃO POPULAR

Há pesquisas feitas no Brasil que se parecem com um velho quadro da televisão, em que se confrontava a arte de cantar de um tenor com a arte de miar de um felino sertanejo. Inquirir de um cidadão que reside em uma cidade, como São Paulo, Goiânia ou Santo Antônio de Goiás, sua satisfação relativa à qualidade de vida, se ele não conhece outras metrópoles brasileiras e, muito menos, outros países, é o mesmo que comparar nada com coisa nenhuma!
            – Sabe que você tem razão, Ângelo! Se eu cotejar o aspecto físico das ruas de Goiânia com as de Santo Antônio de Goiás, não encontrarei diferença alguma: buracos, sujeira, asfalto de péssima qualidade com protuberâncias advindas de retapeaçoes superpostas, barro, poeira, mato... Não sei se o alcaide goianiense utiliza devidamente as verbas recebidas do Fundo de Participação dos Municípios. O santoantoniense, tenho certeza que não, porque sete milhões anuais é muito dinheiro para não se ver nada de novo, a não ser lombadas, que devem custar milhares de reais! O mais é superlativo de descaso. Mas, Santo Antonio, apesar de tudo, dispõe de melhor qualidade de vida que Goiânia, uma vez que, por enquanto, não possui trânsito enervante, certamente arquitetado por um engenheiro semi-analfabeto, como se vê pelas rotatórias e sinaleiros, onde deveria haver viadutos ou outras soluções mais inteligentes para uma capital! Além disso, como se trata de uma cidade pequena, rodeada de verde, pode-se mais usufruir da natureza, com tudo que Goiânia destruiu para dar lugar à presença de seu maior predador: o homem!  
            – Geraldino, há quem diga que o povo é responsável pela sujeira das ruas de quase todos os aglomerados urbanos nestes brasis! Sem dúvida, é! Mas, o poder constituído é mais culpado ainda, à medida que não oferece condições de educação e de cultura para a população! O que se pode esperar de quem acredita que o único estilo de música existente no planeta é o “merdanejo”? Ademais, há determinados fatores étnicos já apontados pelos positivistas que determinam a índole dos homens. Veja, por exemplo, a capital do Paraná! De nada adiantaria a inteligência de seus prefeitos, desde Ivo Arzua até Richa, passando, de modo especial, por Jaime Lerner, se a população depredasse, pichasse, jogasse lixo nas ruas! É imprescindível que se conjugue administração pública com cultura. Queira-se ou não, ela tem de estar arraigada no ser do homem!
            – Goiânia, com as administrações Nion, quando algumas avenidas e praças eram floridas, iniciava, por uma espécie de osmose entre homem e natureza, este processo de conscientização de que o belo necessita de cuidados; mas, infelizmente, não se vêem mais os ajardinamentos daqueles tempos. Há políticos que se acham diminuídos se continuarem ou aperfeiçoarem as boas obras de seus antecessores!
            – Eh! Se os brasileiros sequer conhecem o Brasil, como poderão opinar, se não dispõem de pontos de referência a serem comparados? Depois, a maioria daqueles que se mete a administrar as cidades se coloca no mesmo nível da população, ou prefere acrescentar aquele B, de bolso, que uma Revista, mediante inteligente metátese semântica, atribuiu a um partido que já o possui; mas que se adéqua a todos eles, indistintamente. Há alguns, também, que, à semelhança do mencionado, já o incorporaram à sigla! Os candidatos a cargos públicos deveriam, pelo menos, ser obrigados a conhecer os procedimentos administrativos adotados em determinadas cidades brasileiras. Não precisa ser, necessariamente, Curitiba; pode ser uma cidade de pequeno porte, como São Bento do Sul ou um pouco maior, como Joinville, já que imitar o que se faz nos lugarejos franceses ou canadenses seria sonho!
            – Mas, o velho ditado criado por Santo Agostinho – “Volo ut sis” – traduzido como “Querer é poder”; mas, na realidade, “Quero que sejas”, se verdadeiramente praticado pelos governantes e pela população, ao elegê-los, me faz otimista: um dia chegaremos lá!
            – Geraldino, não é sem razão que você passa dos cem anos! Por acaso, neste tempo todo vivido, as cidades melhoraram ou pioraram? Veja bem que o próprio Niemayer se arrependeu de haver criado nossa capital, quando disse: “Projetar Brasília para os políticos que vocês puseram lá foi como criar um lindo vaso de flores pra vocês usarem como pinico!” Se o povo não sabe eleger, também não sabe cobrar: onde são empregados os sete milhões e mais outros impostos na cidade de Santo Antônio de Goiás?! Quem não sabe eleger, muito menos, sabe opinar, sobretudo se considerarmos que o povo não pensa! Se pensa, fá-lo, como o diz Shakespere, com a cabeça do dedão, porque sofre de frieira entre as orelhas! Até mesmo Brasília, a capital da república, está com várias ruas esburadadas! Também, primeiro, um governador ladrão; depois um ladrão, governador!  
            – Você é muito cruel, Ângelo! Fala de mim, mas também está próximo dos cem!  
Entretanto, acho que você tem razão! Se perguntarmos – uso o plural, porque todas as pessoas esclarecidas o pode confirmar – a determinados cidadãos se eles sabem o porquê de se trocarem ministros todos os dias, respondem: “Sei, não sinhô!”
            – Pois é! Isso ocorre, por quê? Porque não vêem jornais, sequer na televisão! Acabada a novela, desligam o aparelho, ou tagarelam, já que nada entendem de direitos e de deveres! Ler jornal, então, nem falemos! Se lessem, também, de que adiantaria, se  são analfabetos funcionais! Se moram no morro, e uma tempestade destrói-lhes os barracos, à pergunta do repórter, respondem que foi Deus que quis! Nunca são os governantes, em quem votaram e que empregam mal as verbas públicas, os culpados! Que julgamento se pode esperar dessas pessoas, se elas sequer sabem o que é qualidade de vida?! É desesperador! Acho que Deus já está cansado de minhas lamentações; mas só me resta rezar: Miserere nobis, Domine! E ainda: Veni Creator Spiritus, mentes brasiliensium visita!                    

Crônica publicada no Diário da Manhã do dia 8-11-2011, p.6.

VELHAS NOVIDADES

Os meios de comunicação do efêmero destes brasis estão sempre à cata de novidades para encantar os muitos navegantes e os parcos leitores com manchetes sensacionalistas. Dia desses, por exemplo, estampava que determinada felina, péssima por sinal, apresentaria show na capital, após ser garçonete nos Estados Unidos. Acontece que ser garçonete em terras de tio Sam não é demérito nenhum, pois em restaurantes e lanchonetes de excelente qualidade, em Nova Iorque, são garçons e garçonetes, os artistas.
            – Como se situariam, então, as informações desses comunicadores? Adviriam do desconhecimento da realidade de outros países, ou seria uma forma sórdida de chamar a atenção dos espectadores, considerando que eles também ignoram usos e costumes de outras partes do planeta?
            – Para lhe dizer a verdade, considerando esses tempos de ENEM e de ENAD, para se ocultar a trágica realidade do ensino brasileiro, acredito que seja ignorância mesmo! Certamente, quem redige essas notícias a que se é obrigado a ver vários dias na tela do monitor, como se todos os brasileiros, indistintamente, fossem imbecis, são néscios de costumes e, sobretudo, da evolução por que passam outras nações. Além disso, sem dúvida, há também a chamada má-fé, pois apresentam procedimentos naturais como se fossem anormais, apenas para despertar os “leitores” para o pornográfico!
            – Eu iria ainda mais longe, Ângelo! Um e outro resultam da chamada incultura, uma vez que, decorrente dela, o informante não vê no corpo a máxima expressão do belo, como já expusera Platão, no “Hípias maior”; mas apenas a malícia do olhar e do que ele suscita! A beleza do corpo é admirada pelos artistas que sabem o belo estético desde a antiguidade. As estátuas das Vênus de Milo e da Calipígia são uma prova desse culto ao corpo, que permanece na arte, até hoje; mas que teve seu auge no renascimento.
            – O problema, Geraldino, é que os cultores do efêmero nunca leram Platão e, muito menos, sabem o que seja Vênus Calipígia!
            – Você tem razão! Se soubessem, não perderiam tempo com o óbvio! Se na antiguidade greco-romana já criaram uma deusa de belas nádegas que se encontra no Museu de Nápolis, por que, em pleno século XXI, demonstrarem-se falsos pudores ou, pior, revelarem o belo como uma novidade inteiramente pornográfica e, não, erótica?
            – Eles não sabem as diferenças entre o erótico e o pornográfico! Se o objeto a se admirar se prender ao estético, mesmo que ele se atenha a um corpo real, tem-se o erótico. Se ele se prender apenas à exploração do corpo pelo corpo, com intenções inteiramente claras de mostrar o nu, disfarçadas sob o véu da beleza, tem-se o pornográfico.
            – Conceito e práticas antigas que ainda se prestam à admiração e ao espanto de muita gente pequena quer pelos conhecimentos, quer, sobretudo, pela visão estreita e deturpada do humano! Não o fosse, e a Igreja Católica, tão severa em terras de Itália, mormente em Roma, a ponto de diferir inteiramente da anárquica igreja existente no Brasil, não teria uma dessas estátuas no Museu do Vaticano! Isso demonstra que acima do preconceito de qualquer ordem, coloca-se o belo estético, a arte com os seus mistérios e enigmas, capazes de elevar o humano ao sublime! E a Igreja de Roma sabe disso, pois, em suas missas, ainda se ouvem musicas e, não, miados ou ruídos que devem ferir os ouvidos do Senhor Deus!
            – Assim pensando, amigo, passa da hora de mostrarem-se seios e nádegas como grandes novidades e, mormente, como formas míopes de enxergarem o corpo, pois isso comprova estar o noticiarista imbuído de pensamentos capiaus e botocudos, dignos de rir-se à socapa.
            – O belo causa “stupore”, porque, como o diz, Gabriel Peignot, é obra dos deuses! Portanto, não pode e não deve ser vulgarizado por pessoas pequenas e medíocres! Quando se mostra o belo do corpo, todas as novidades são velhas.
            – Ainda me resta uma dúvida! Você falou sobre navegantes e, principalmente, “leitores”, com aspas, por quê? Navegante, para mim, era o nome de um boi que fazia par com Navio, em uma excelente junta de bois carreiros que Antônio Bello possuía! Mas, e “leitores”?
            – Ora, Geraldino, vê-se que você apesar de adaptado à modernidade, ainda não se ligou totalmente à terminologia cibernética. Navegante, aqui, é quem viaja pela imensidão rica e pobre da internet. “Leitor”, entre aspas, porque considero o ato de ler uma atividade muito séria, em que o homem descobre o mundo e, sobretudo, se enriquece como ser naquele sentido de conquista do humano! Como, hoje, se lê pouco ou quase nada, a verdadeira descoberta do mundo praticamente não existe, e, em conseqüência, o homem não conquista o humano. Permanece no mundo apenas com o sentido do estar, porque ser implica consciência de homem sendo. No momento em que se fala apenas em cidadania, inteiramente desligada do ser, pratica-se apenas demagogia barata, semelhante à visão do corpo apenas como objeto de desejo!
            – Vê-se, apesar da minha visão antiga da realidade, que não adianta a pessoa viajar dentro do computador. É preciso viajar por dentro das ciências, com conhecimento dos livros e do vivido. Só assim se evitará que os comunicólogos nos apresentem velhos acontecimentos, como inteira novidade!
– Mas, essa é a cultura brasileira! Para se ter uma idéia, o meu provedor de internet, UOL, reformulou o seu site e colocou o item “Educação” lá embaixo. Eu, que uso constantemente o dicionário, tenho de passar pela página toda para encontrá-lo nas profundezas do Hades cultural! Coisas de Brasil do ENEM, do ENAD e até do NEM, nunca! Adjuva nos, Domine!

Crônica publicada no Diário da Manhã do dia 15-11-2011, p. 5.

CONJUGAÇÕES DO VERBO POÉTICO - CARLA ANDRADE

A poesia está morrendo, dizem os insensíveis. Enquanto houver alguma parcela de humano no homem, ou algum homem humano, porque há homens que apenas são homens, sem serem humanos, haverá alguém se conjugando em linguagem poética, alguém dialogando com a própria essência. É por isso que a poesia é sempre um ser nascituro, porque os que vão morrer estão sempre renascendo pela palavra, como o vemos e sentimos nos versos de Conjugação de pingos de chuva, em que Carla Andrade se transforma e se conforma ao belo estético, porque em poesia convertida.
            Essa conversão, entretanto, não ocorrer per se, mas mediante lavor insano com as palavras para que elas se revelem muito além do seu estado de dicionário. Para isso, o ser lírico, através do imaginário, explora-as desde dentro, nomeadamente através das imagens, em que essências e substâncias transmigram de uma palavra para a outra, mediante verdadeiro processo alquímico. O real, deste modo, transforma-se em matéria e substância de imaginário já a partir do título do livro, uma vez que conjugar pingos de chuva é uma operação inteiramente poética, pois o sentido do verbo se agrega a um objeto que, na realidade, não o contempla.
            A contraposição, por exemplo, de imagens urânicas com imagens ctônicas, no poema Sinestesia, antes de ser um processo redundante, face sua intitulação, revela-se procedimento poético necessário e inteligentemente utilizado, uma vez que elas apontam para cifras da condição humana. O caráter onírico que elas conferem ao ser lírico confere à descoberta do amor um dimensão metafísica, uma vez que ele se instalava na atmosfera do sonho conferido por uma imagem global a que podemos denominar estelar, marcada pela transfiguração inerente ao brilho.
            Imagens de poeta que sabe os mistérios do poético, encontramos no poema Tratado das perplexidades. A dimensão metafísica da linguagem, materializada em imagens potâmicas, geóficas e ictióficas, transforma todo o poema em cifra da condição humana, porquanto o veiculo da existência, representado pelo barco, e a estrada se materializa no rio, que encerra o processo alquímico existencial, uma vez que sempre se vive em transitoriedade e, sobretudo, em panta rei, porque os seres apenas se encantam, passam da matéria para o espírito. Além disso, as imagens ornitológicas da penúltima estrofe esclarecem bem o transitório-permanente, à medida que o ser sempre será não-ser, e o não-ser sempre será ser. O título do poema e as imagens lembram Manoel de Barros. Entanto, em vez de ser uma lembrança que empobreça o poema, eleva-o à esfera do sublime, porquanto marcado pelo talento poético de Carla, que imprime às imagens o selo do se estilo e, em decorrência, da sua poética.
            Na direção da intertextualidade, coloca-se o poema Carrossel, leve lembrança de Ferreira Gullar, só que em alto nível, posto que, além das imagens que transformam a essência do ser lírico em essência de linguagem, ainda se sobressai forte reflexão metafísica em torno, não apenas do existir, mas em torno do ser e sua qüididade. A distância entre o ser do desejo e o desejo do ser, verificada já a partir da primeira estrofe, adensa-se, à proporção que a menina vai fundo nas contradições típicas do ser humano, na necessidade de ser tudo sem deixar de ser nada. O fecho do poema constitui a síntese do contraditório: O começo do infinito e o fim do apelo/de ser brasa cinza/carregada por brisa. As imagens, a despeito de altamente estéticas, não eliminam a dualidade inerente ao humano; antes a reverbera.
            Verdadeira alquimia, Doses do real revela o lado sublime do poético, mediante confluência de imagens que transubstanciam as palavras e, em decorrência, a realidade em matéria e essência de poético. Estabelece-se, assim, um diálogo perfeito entre a poesia, entendida como revelação do humano, e o ser lírico, mormente na terceira estrofe, em que ocorre a interiorização do real, mediante a utilização de singular imagem ornitológica, uma vez que os pássaros feridos em bandos perdem-se dentro do sujeito poético.
O resultado ontológico dessa postura metafísica é a cifração da condição humana, naquele sentido definido por Octavio Paz de imagem, que transforma as limitações da humanidade em refinada linguagem poética, como lemos na quinta estrofe, que nos impõe sua presença: Os homens não podem sair/da teia líquida,/das operetas de cetim,/enclausurados.
            O poema se torna ainda mais sublime, se assim podemos falar, à medida que o ser lírico incorpora a angústia existencial mediante imagens urânicas que, em vez de transmigrarem o ser para a luz, confirma seu estado de abismo, por intermédio de uma imagem ctônica, em que o escuro da realidade se conjuga a abismo integral do ser, confirmado pelo simbolismo impresso ao vocábulo pé, imagem do corpo e do espírito em sua totalidade. O fecho do poema, portanto, é singular e se merece ao deleite do leitor: As coisas velhas/não têm pressa./O sol dói mais/que a lua dento de mim./Escura de realidade/urgentemente/descanso meus pés/na linha tênue/do abismo.
            Não sem motivo, a poetisa fragmenta os versos octossílabo – os dois primeiros –, decassílabo – o terceiro junto com o quarto –, hendecassílado – o quinto e o sexto – e dodecassílabo – os dois últimos. Se o não fizesse, não conformaria a fôrma do poema com o estado de abismo existencial. Além disso, se os enjambements exercem a função de enfatizar o conteúdo do segundo verso de cada encadeamento, nos cinco últimos versos eles transformam o abismo em matéria, em coisa ante os olhos, como se o ser e sua essência fossem deslizando pelas encostas do nada.
            A arte poética de Carla Andrade, por essa simples análise, revela o quanto tem de ser profundo o discurso estético. Sobretudo, revela que a poesia, como toda arte, realiza-se em vários níveis artísticos; mas somente a verdadeira arte, como essa, é permanente. Dizer-se que poesia que o povo não entende não é poesia, configura mera demagogia, uma vez que não é a arte que tem de descer ao leitor; ele é que tem de ascender a ela, mediante conhecimento de seus mistérios e enigmas. Poesia sem enigma, sem esconder segredos na linguagem esteticamente trabalhada, não é arte; mas apenas revelação do real. O sublime, como vemos nos poemas de Carla, só é possível mediante a presença do belo em seu sentido superlativo.

                                                                       Refúgio do Poeta, 8-11-11          
                   
                          

segunda-feira, 21 de março de 2011

http://www.youtube.com/watch?v=_4i1Q7V8Gxs

É preciso fingir


José Fernandes

Houve uma fase da vida que Hegião queria consertar o mundo. Tudo que lhe parecia errado era água para armar uma tempestade e energia para detonar raios e trovões. Hoje, o mundo pode cair-lhe sobre a cabeça, que ele não se abala. Dia desses mesmo, pareceu-me sentir que o estavam ludibriando, mas agiu como se não fosse com ele. Como estranhasse sua atitude, respondeu-me:
— Aprendi, com Fernando Pessoa, que não é somente o poeta que deve ser um fingidor; a maioria das pessoas, hoje, se quiser viver de forma saudável e em harmonia, tem de fingir. Fingir tão completamente que chegue e fingir que a dor que lhe é impingida, pareça uma doença originária das próprias imperfeições corporais, ou fingir tão completamente que chegue a sentir que é amor a dor e a náusea que deveras sente.
— Não estou entendendo bem o que você quer dizer! Nunca o ouvi creditar nenhum bem aos humanos!
— É simples! Você só conhece uma pessoa realmente, quando ela, de alguma maneira, pode controlar parte de algum fio da meada que enreda a sua vida. Foi a que aconteceu comigo! Tinha um amigo que, de repente, foi alçado a um cargo de chefia, por minha indicação, sem que ele o soubesse. Assim que assumiu, o primeiro colega e amigo - considerava-o amigo - a ter a ponto do novelo da existência extirpado fui eu. Pelo menos, foi a que ele pensava.
— O que você fez!
— Analisei os fatos e percebi que ele não dispunha da grandeza de caráter que sempre lhe atribuíam, inclusive eu. Medi, pesei e sopesei a decisão que deveria tomar e conclui que a melhor que teria de fazer era tornar-me um fingidor. Fingir tão sinceramente, para que ele pensasse que eu continuava a vê-lo com os mesmos olhos antigos, ou acreditar que aquela operação de catarata que fizera de nada me adiantara, pois permaneço na escuridão, a ponto de não enxergar as suas sandices.
— Parece-me que assim ele acreditara que você é um parvo e ira, sempre que puder, apoquenta-lo, sem atender as suas solicitações. Além disso, enquanto ele se sentirá feliz, por menosprezar-lhe a capacidade de criar e transmitir o novo aos outros, você estará sofrendo por não lhe revelar o que realmente pensa que ele é!
— Pode ser que hoje ele se sinta realizado pelas extravagâncias cometidas; mas, como todos os mistérios, algum dia, serão desvendados, até aqueles de que fala Pascal, espero sua integral decepção por se saber ludibriado pelo meu fingimento. Aí, aquele gostinho mefistofélico que tivera, transformar-se-á em dor. E a dor que se segue ao prazer, dói mais que aquela sentida enquanto fingia acreditar em sua amizade.
— Você tem vocação para masoquista, Hegião!
Se fosse comigo, lhe diria a verdade. Mostraria a ele a falsa amizade que ele lhe devotara até o momento. Ainda mais que desprezara a sua especialidade, atribuindo-lhe uma função que nada tem a ver com as atividades com que você fez seu nome ao longo da carreira!
— Isso são águas passadas, Filopólemo!
Antigamente, eu o chamaria a realidade! Faria uma tempestade diluviana! Hoje, acredito que o melhor é fingir, porque quem ri melhor, ri por último!
— Hegião, acho que você pirou de vez! Sou adepto daquela máxima, chamada "lei de talião": Oculum pro oculo, et dentem pro dente! Pisou no meu pé, estou retribuindo a gentileza a altura!
— Você sabe que também já segui essa máxima letra a letra; mas o tempo passa, e nós mudamos. Você ainda é muito jovem. Só ira perceber isso daqui a algum tempo. Não há ferida que o tempo não cure. E pena que talvez não viva para vê-lo inteiramente outro!
— Você parece que não me conhece! Meu nome significa "aquele que gosta de guerra". Jamais irei adotar a postura do fingimento, da paz pela paz. A paz, para mim, só pode existir, se advier do sofrimento causado pela guerra! Se queres a paz, prepara-te para a guerra, Si vis pacem, para bellum!, diziam os latinos. Se bem que sou mais adepto dos gregos, para quem "a guerra torna a paz mais sólida!
— Acho que estamos usando latim demais! Latim é língua morta, embora imprescindível ao aprendizado do bom português! Oxalá, todos a soubessem! Mudando um pouco - detesto guerra -, há uma máxima grega - Os olhos são testemunhas mais fiéis do que os ouvidos! -, repito: gostaria de viver para testemunhar as transformações por que passara o seu ímpeto de guerra! Também já fui assim! Panarkós, meu grande amigo, que você conhece, sempre me reprimia. Dizia que eu estava contrariando a minha própria essência, pois meu nome, Hegião, significa "o que serve de guia, o que conduz". Eu pouco ligava para os seus conselhos, imaginando-me senhor de malas e bagagens. Não levava desaforo para casa. Hoje, sou o que você esta vendo!
— Comigo, isso nunca vai acontecer! Fingir que tudo esta bem, quando não está, não faz parte de minha índole.
— Veremos! Nunca se deve dizer que dessa água não beberei! Já cai nessa besteira muitas vezes! Nada melhor do que você ver aquele sorriso diatríbico nos lábios de quem o está pensando enganado, e você é que o está logrando! Sei que é uma atitude um tanto diabólica; mas nada como pagar com a mesma moeda, e a pessoa se julgar no pedestal da glória! É uma forma de bem viver, ou melhor, de conviver em uma sociedade hipócrita!
— Acho melhor guerra declarada!
— Você e o Bush podem dar as mãos. Acredito que o melhor é a guerra fria, em que você nem armas tem e finge tê-las.
— Mas, no seu caso, você as tem; só não quer usá-las! Tanto é verdade que atua em todos os flancos, a fim de que pensem que você conhece a vanguarda e a retaguarda apenas de ouvir dizer e, no entanto, guerreia as escondidas! Ou melhor, finge estar de mãos abanando.
— Assim é melhor! Finjo estar em paz, mesmo estando de mísseis apontados para o inimigo. Quando ele souber disso, certamente ficara desconcertado. Portanto, sempre fazer como o poeta: fingir tão completamente, que chegue a sentir que é amor, a dor que deveras sente. Isso mata qualquer guerreiro!
— Laques, você que apenas ouviu até agora, está de acordo?
— Esta tem sido a minha sorte: ouvir sem falar e falar sem dizer!