A poesia está morrendo, dizem os insensíveis. Enquanto houver alguma parcela de humano no homem, ou algum homem humano, porque há homens que apenas são homens, sem serem humanos, haverá alguém se conjugando em linguagem poética, alguém dialogando com a própria essência. É por isso que a poesia é sempre um ser nascituro, porque os que vão morrer estão sempre renascendo pela palavra, como o vemos e sentimos nos versos de Conjugação de pingos de chuva, em que Carla Andrade se transforma e se conforma ao belo estético, porque em poesia convertida.
Essa conversão, entretanto, não ocorrer per se, mas mediante lavor insano com as palavras para que elas se revelem muito além do seu estado de dicionário. Para isso, o ser lírico, através do imaginário, explora-as desde dentro, nomeadamente através das imagens, em que essências e substâncias transmigram de uma palavra para a outra, mediante verdadeiro processo alquímico. O real, deste modo, transforma-se em matéria e substância de imaginário já a partir do título do livro, uma vez que conjugar pingos de chuva é uma operação inteiramente poética, pois o sentido do verbo se agrega a um objeto que, na realidade, não o contempla.
A contraposição, por exemplo, de imagens urânicas com imagens ctônicas, no poema Sinestesia, antes de ser um processo redundante, face sua intitulação, revela-se procedimento poético necessário e inteligentemente utilizado, uma vez que elas apontam para cifras da condição humana. O caráter onírico que elas conferem ao ser lírico confere à descoberta do amor um dimensão metafísica, uma vez que ele se instalava na atmosfera do sonho conferido por uma imagem global a que podemos denominar estelar, marcada pela transfiguração inerente ao brilho.
Imagens de poeta que sabe os mistérios do poético, encontramos no poema Tratado das perplexidades. A dimensão metafísica da linguagem, materializada em imagens potâmicas, geóficas e ictióficas, transforma todo o poema em cifra da condição humana, porquanto o veiculo da existência, representado pelo barco, e a estrada se materializa no rio, que encerra o processo alquímico existencial, uma vez que sempre se vive em transitoriedade e, sobretudo, em panta rei, porque os seres apenas se encantam, passam da matéria para o espírito. Além disso, as imagens ornitológicas da penúltima estrofe esclarecem bem o transitório-permanente, à medida que o ser sempre será não-ser, e o não-ser sempre será ser. O título do poema e as imagens lembram Manoel de Barros. Entanto, em vez de ser uma lembrança que empobreça o poema, eleva-o à esfera do sublime, porquanto marcado pelo talento poético de Carla, que imprime às imagens o selo do se estilo e, em decorrência, da sua poética.
Na direção da intertextualidade, coloca-se o poema Carrossel, leve lembrança de Ferreira Gullar, só que em alto nível, posto que, além das imagens que transformam a essência do ser lírico em essência de linguagem, ainda se sobressai forte reflexão metafísica em torno, não apenas do existir, mas em torno do ser e sua qüididade. A distância entre o ser do desejo e o desejo do ser, verificada já a partir da primeira estrofe, adensa-se, à proporção que a menina vai fundo nas contradições típicas do ser humano, na necessidade de ser tudo sem deixar de ser nada. O fecho do poema constitui a síntese do contraditório: O começo do infinito e o fim do apelo/de ser brasa cinza/carregada por brisa. As imagens, a despeito de altamente estéticas, não eliminam a dualidade inerente ao humano; antes a reverbera.
Verdadeira alquimia, Doses do real revela o lado sublime do poético, mediante confluência de imagens que transubstanciam as palavras e, em decorrência, a realidade em matéria e essência de poético. Estabelece-se, assim, um diálogo perfeito entre a poesia, entendida como revelação do humano, e o ser lírico, mormente na terceira estrofe, em que ocorre a interiorização do real, mediante a utilização de singular imagem ornitológica, uma vez que os pássaros feridos em bandos perdem-se dentro do sujeito poético.
O resultado ontológico dessa postura metafísica é a cifração da condição humana, naquele sentido definido por Octavio Paz de imagem, que transforma as limitações da humanidade em refinada linguagem poética, como lemos na quinta estrofe, que nos impõe sua presença: Os homens não podem sair/da teia líquida,/das operetas de cetim,/enclausurados.
O poema se torna ainda mais sublime, se assim podemos falar, à medida que o ser lírico incorpora a angústia existencial mediante imagens urânicas que, em vez de transmigrarem o ser para a luz, confirma seu estado de abismo, por intermédio de uma imagem ctônica, em que o escuro da realidade se conjuga a abismo integral do ser, confirmado pelo simbolismo impresso ao vocábulo pé, imagem do corpo e do espírito em sua totalidade. O fecho do poema, portanto, é singular e se merece ao deleite do leitor: As coisas velhas/não têm pressa./O sol dói mais/que a lua dento de mim./Escura de realidade/urgentemente/descanso meus pés/na linha tênue/do abismo.
Não sem motivo, a poetisa fragmenta os versos octossílabo – os dois primeiros –, decassílabo – o terceiro junto com o quarto –, hendecassílado – o quinto e o sexto – e dodecassílabo – os dois últimos. Se o não fizesse, não conformaria a fôrma do poema com o estado de abismo existencial. Além disso, se os enjambements exercem a função de enfatizar o conteúdo do segundo verso de cada encadeamento, nos cinco últimos versos eles transformam o abismo em matéria, em coisa ante os olhos, como se o ser e sua essência fossem deslizando pelas encostas do nada.
A arte poética de Carla Andrade, por essa simples análise, revela o quanto tem de ser profundo o discurso estético. Sobretudo, revela que a poesia, como toda arte, realiza-se em vários níveis artísticos; mas somente a verdadeira arte, como essa, é permanente. Dizer-se que poesia que o povo não entende não é poesia, configura mera demagogia, uma vez que não é a arte que tem de descer ao leitor; ele é que tem de ascender a ela, mediante conhecimento de seus mistérios e enigmas. Poesia sem enigma, sem esconder segredos na linguagem esteticamente trabalhada, não é arte; mas apenas revelação do real. O sublime, como vemos nos poemas de Carla, só é possível mediante a presença do belo em seu sentido superlativo.
Refúgio do Poeta, 8-11-11
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