terça-feira, 18 de dezembro de 2012


NATAL


                                  

                                                                      

            Quando era menino sempre ouvia dizerem: “Querer é poder”. Ficava intrigado, porque desejava muitas coisas e nunca as via realizadas. Meu querer nunca era poder. Demorei a compreender que esta vontade de potência está dentro de nós; mas para se materializar, tornar-se ato, demanda muita luta, persistência e pertinácia. Desse modo, continuei sonhando, criando imaginários, fugidias realidades. Sem devaneios e fantasmas, é impossível suportar as dores do existir. No Natal, como em meu sapato nunca aparecesse presente algum, compreendi que o Papai Noel não era o Menino que eu vira no presépio, já bastante envelhecido. Os dois, aliás, não me pareciam ter nada em comum: diferentes origens e destinos.

            Mesmo assim, continuo engenhando fantasias, alimentando fábulas. Nesse final de ano, por exemplo, gostaria de ver minhas Boas Festas operando sortilégios, milagres, materializações de fúlgidos desejos, como o fazem as palavras mágicas, encantatórias. Gostaria de ser um mago que, ao dizer Feliz Natal, fizesse as pessoas renascerem em nova humanidade, esquecidas de limites e contingências humanas.

            Assim, o homem que capenga ao peso dos ódios, derramar-se-ia em gentilezas e amabilidades, como se nunca houvesse nauseado o próximo. Todos que o conheciam, vizinhos, parentes — amigos, não tinha — ficariam atônitos, paralisados por uma energia só conhecida por quem sabe benquerenças de amor.

            A mulher que estilava feitiços e grongas, engoliria a língua sibilina e começaria a ver que o sol sempre nasceu para todos; basta empenhar-se na conquista dos segredos da luz. Aqueles que vivem o tédio e a alegria do outro sentiriam nela uma aliada e festejariam sua conversão às hostes do amor.

            Aquele menino que atirava pedras aos pássaros veria neles uma extensão do próprio braço e o estenderia ao infinito para abraçar vidas a entoarem aleluias e a voarem liberdade.

            Os homens que ceifavam vidas às árvores e aos animais, que poluíam os rios e os mares, envenenavam o ar, assassinavam o silêncio das cidades, dos bosques e das cascatas, abaixariam a cabeça e sairiam do torpor dos lucros e dividendos, pensando e sabendo as necessidades da natureza... Veriam nela a extensão do humano e procurariam devolver-lhe parte de sua humanidade.

            O velho, carcomido pela insensibilidade do tempo, sentiria a juventude pulsar-lhe nas veias e abraçaria a amada e sairia dançando valsas pelos bosques e salões da felicidade.

            O menino maltrapilho que pensava roupas limpas, comida à mesa, casa para morar, cabeça ao travesseiro, escola para estudar, passeio de carro aos domingos, acordaria no sonho do sonho do direito e se veria na igualdade dos bens que os outros subtraíram à terra.

            O mendigo que dormia à calçada, alucinando cama quente e macia, amanheceria cidadão, com casa, emprego, cidadania. Seria, de fato, homem humano.

            O pedinte que degusta cheiro de carne assada à churrasqueira, sentaria à mesa e almoçaria, todos os dias, o Natal do homem novo.

            — Doentes de todos os hospitais, Feliz Natal! E eles afogariam suas dores e se levantariam com a liberdade de quem vence as maldades do tempo, distribuindo risos a todos que lhes cruzassem os caminhos.

            — Feliz Natal, crianças sujas, famintas, remelentas, tristes! E elas, em toque de mágica, seriam vôos quiméricos nascendo, qual flores, no jardim da infância, porque ainda lhes seria permitido criar castelos, visionar fadas, entressonhar meninices.

            — Esqueletos mortos-vivos de Ruanda, Somália, Etiópia, Sirilanka, brasis..., que sugam as secas tetas das mães morrentes, Feliz Natal! Eles, apenas ao som do nome, levantar-se-iam com o colostro do leite verbal, correriam pelos campos, subiriam em pau de sebo e, lá nas nuvens, energizariam os povos que nasceram para morrer de nada.

            Também às pietás que embalam a morte no colo, rodeadas de outras mortes, gritaria o meu Feliz Natal. E elas... Que seria delas?!...

            — Feliz Natal! desejaria ao idoso abandonado no asilo. Ele levantaria com a força dos vinte anos, vestiria roupas de festa, pegaria um táxi, chegaria à casa, abraçaria parentes e amigos e diria aos filhos: “Feliz Natal, meus filhos! Aqui estou para fazê-los crescer segundo os mandamentos da dignidade humana.”

            — Feliz Natal! E o ricaço autista encerrado em sua torre de marfim, descobriria a alteridade de sua imagem no outro. Perceberia que o poder não se fecha em si mesmo, mas existe, propaga-se e se avoluma à medida que compreende o todo, em um processo de interdependência, em que a sinergia é indispensável. Despencaria de seu ego e abraçaria a multidão dos nadas que perambulam pelas vias da miséria.

            — Feliz Natal, senhores políticos! Diria eu, convicto de que a verdade ainda é possível. E eles, acordando da letargia do solipsismo, ruborizar-se-iam ao olhar para o povo que lhes conferira direitos de deuses e se lembrariam de que, até eles, um dia, foram destronados do culto dos homens.

            Presidente, como é bom, mesmo sendo plebe, esquecida na insignificância das cifras demográficas, desejar-lhe Feliz Natal! Feliz Natal, Presidente! Ele sairia de sua bolha de vaidades e de mentiras e sentiria vergonha por fechar os olhos ante a desenfreada corrupção “nunca vista neste país” e, sobretudo, envergonhar-se-ia por cegar-se ante a evidência da verdade pisoteada sob os tapetes vermelhos dos poderes da República.

            Não sei se minha fala tem a magia dos mantras ou as artes e manhas das palavras encantatórias, ou o poder dos olhos do gato daquele filme Um dia, um gato. De qualquer modo, soprarei aos quatro ventos a alegria do nascimento de Cristo. Mesmo estando no campo do imaginário e do imaginado, da ilusão e da alucinação — porque ainda sou humano —, espero que todos encham os pulmões e elevem comigo, em todas as ondas e freqüências, aquele grito de Edward Munch, a fim de podermos acordar o homem para uma nova humanidade: FELIZ NATAL!!!!!!  
 
Crônica publicaada no Diário da Manhã do dia 18-12-2012.

           

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012


            REALIDADE E FICÇÃO – FICÇÃO E REALIDADE

 

            A realidade é definida como característica do que é real. Por sua vez, o real é o que se opõe ao aparente, ao ilusório, ao fictício. Ao se falar sobre literatura e, em decorrência, falar sobre o imaginário e, às vezes, até sobre o onírico, a distinção entre realidade e ficção se impõe, e perguntas se levantam. Ora, em que momento o fantasioso – devemos considerar que, em grego, tudo que se refere ao imaginário se define como φαντασίωση ou φανταστικός – se desprega do real, e o real se desprende do fictício, da fantasia, ou a realidade se separa da imaginação, em grego, φαντασία? Se entendermos a realidade como um fato histórico acontecido e cristalizado pela palavra, em que momento ele deixa de ser real, deixa de ser história e se conforma ao ficcional, ao fantasioso? É possível, a um só tempo, ser real e fictício?

            As respostas a estas interrogações têm de ser feitas de conformidade com o gênero ficcional a que nos detivermos. Assim, se estivermos analisando um romance, como Os sertões, colocamo-nos diante de um fato histórico, que se tornou História, por intermédio de personagens reais, localizadas em um tempo e em um espaço geograficamente definido. Como este fato se transforma em ficção? A partir do momento em que a história passa para o romance, realidade e ficção passam a conviver de tal maneira que a história será estudada sob o aspecto cientifico-filosófico, e o imaginário, no sentido grego de φανταστικός, mediante as teorias relacionados à narrativa de ficção, pois, além de o discurso ser fictício-histórico ou histórico-fictício, a distância temporal que se estabelece entre o passado e o presente insere a história real na história ficcional, ou a realidade no imaginário.

Se não, passemos para um fato ficcional, que os leitores não-mineiros ou distantes do ambiente imaginário de Grande sertão: veredas verão apenas como fantasia. O narrador Riobaldo, ainda no começo do romance, nos diz que Na feira de São João Branco, um homem andava falando: – “A pátria não pode nada com a velhice...” Discordo. A pátria é dos velhos, mais. Era um homem maluco, os dedos cheios de anéis velhos sem valor, as pedras retiradas – ele dizia: aqueles todos anéis davam até choque elétrico... Não. Eu estou contando assim, porque é o meu jeito de contar. Guerras e batalhas? Ora, se São João Branco é um espaço criado pelo ficcionista, o homem dos anéis é uma personagem de ficção. Todavia, quando éramos menino, víamos nas festas religiosas realizadas no patrimônio de Arco Verde, pertencente ao município de Alto Rio Doce, uma personagem idêntica que, temos certeza, é a mesma que inspirou Guimarães Rosa, conhecida como Joaquim Pequete. Para nós, portanto, ficção e realidade se imbricam no discurso ficcional e realizam-se em um espaço real-fictício, como bem nos diz Carlos Augusto de Figueiredo Monteiro: Em verdade, toda uma trama, um enredo que se desenrola sobre uma cena, tudo que é narrado num romance, acontece ("tem lugar") num continuum espacial mais ou menos definido, e a participação do leitor – que não é totalmente passiva como na leitura jornalística – tende a identificá-la a uma realidade concreta, ou seja, "geográfica". Mas, em tanto que na criação artística, ficcional, haverá, forçosamente, um "espaço artístico" que não pode ser reduzido aos limites estreitos de uma paisagem real. A imbricação da ficção com a realidade, neste caso, além de instaurar-se mediante a estética que perpassa o discurso, intencionalmente fictício, ainda cede espaço à perspectiva do leitor.

Se essa conjunção entre realidade e ficção é visualizada em gêneros narrativos longos, em narrativas curtas, como o conto e a crônica, ela é praticada sobejamente. Só que, ao submeter o real à construtura do discurso artístico e transformá-lo em linguagem, ele assume, também, as feições de literatura; ele adquire literariedade. Estas reflexões se nos impuseram pelos livros Realidade e ficção e Rochedo e ferrolho, do ilustre goiano Altamiro de Moura Pacheco, compostos de contos, crônicas e novelas a que analisaremos neste breve estudo.   

 

1 – REALIDADE – O CANTO DAS PEDRAS  

 

      A realidade, correlacionada com o conhecimento, em que se propõem ou se discutem dados empíricos, cientifica e historicamente, além de se conjugar com o fictício no conto, no teatro, na poesia, notadamente a popular, e no romance, é cristalizada sob a forma de crônica: gênero literário extremamente versátil, pois se permite revelar em inúmeras faces ou em inúmeras espécies que atendem ao discurso jornalístico e ao estético. Ela consegue ser poesia e ensaio sobre todos os assuntos – história, filosofia, política, economia, teosofia, psicanálise, sociologia, critica literária –; mas para permanecer, porque a arte é o contrário do tempo, ela tem de quadrar-se ao estatuto ontológico da literatura, caracterizado por uma linguagem que instaure o estético, ou ao estatuto da história, em seu sentido amplo de cristalização de fatos e conhecimentos que marcam a evolução da humanidade. Assim, atendo-nos às cinco crônicas que abrem o livro Realidade e ficção, intituladas O Brasil após Brasília, verificamos que elas encerram perspectivas futuristas em relação ao Brasil que fazem de Altamiro não apenas um dos primeiros cronistas da nova capital; mas, sobretudo, registram o pensamento de um escritor de visão ampla da realidade brasileira da época. Suas reflexões, na primeira crônica (3-11-1960) revelam forte crítica à ocupação desordenada das regiões que compõem o Brasil, responsável pelo desenvolvimento de umas e retardamento de outras. Mesmo dizendo-se isento de conceitos filosóficos, é claro ao rechaçar explicações positivistas para a indolência do brasileiro, razão, para alguns, da fraca visão administrativa que justifica, pela própria raça, o caráter irresponsável do povo. A saída para a irresponsabilidade é o trabalho e, em termos de brasilidade, a construção de Brasília, que trará o desenvolvimento igualitário do País.

Na segunda crônica (8-11-1960), são apresentados os meios necessários ao desenvolvimento da Nação. Ressalta, em primeiro lugar, a ordem e a disciplina, pois é através delas que as organizações de poucos se consolidam para o trabalho de muitos. A conjunção do trabalho com a economia, inclusive mediante criação de cooperativas, constitui, em poucas linhas, verdadeira lição de administração. Do mesmo modo, sua intelecção da necessidade da educação e de como ela tem de ser implementada também é fascinante, à medida que, através dela, se desenvolvem o trabalho, a empresa, o estado e, em decorrência, o cidadão.

            Na crônica III (13-11-1960), ele reforça a imprescindibilidade do trabalho, ao ponto de dar lições aos assistencialistas de plantão hodiernos, incentivadores da preguiça e do aviltamento do homem. Se não, vejamos um trecho desse discurso real-imaginário para a atualidade:

 

                        Chovendo ou fazendo sol, calor ou frio, o homem deve trabalhar.

Sem trabalho, a vida se avilta: o intelectual se vulgariza e o operário se resvala da decadência à mendicância, engrossando o rol das dificuldades sociais.

Com o trabalho, a vida se enobrece: o intelectual evolui e o operário se eleva, granjeando meios para a própria subsistência e contribuindo para a solução dos problemas afetos à sociedade que o acolhe.

O estado, nem sempre certo e muita vez reincidente em erros por imitação inadequada, cada vez maior pela tutela que lhe é imposta, em progressiva socialização, cria e modifica, amplia e restringe os horizontes do trabalho à medida que os regimes políticos se sucedem ou se reformam. (1966, 19)

 

            A correlação que ele estabelece entre trabalho, técnica e ciência para o perfeito funcionamento da economia e do estado, transcende nossos dias, pela atualidade dos conceitos e, sobretudo, pelo fato de passados cinqüenta anos ainda não terem sido postos em prática.      

 A realidade, entendida como fenômeno empírico em constatação ou constatável, confirmado ainda pela observação, presente na crônica IV (25-11-1960) é chocante, sobretudo por se conformar também à verdade cientifica de que se não pode discordar. O que disse ele, há exatamente cinqüenta anos, que não se verifica neste momento em que passamos a lê-lo?:

 

A imprevidência tem sido amiga constante da administração pública em nosso País, onde quase nada se realiza, sem que primeiro se ouçam os brados angustiantes da necessidade imediata.

Quanta cousa se conhece, por aí além, planejada em horas de apertos e que somente produzem frutos desassazonados!

Quanta paliação na precariedade de medidas tomadas por interesse, que não aproveita ao País, debilitando as finanças públicas e prejudicando a iniciativa particular!

 Além de obras circunscritas às pedras fundamentais, já sepultadas pelo esquecimento, quantas, embora de real utilidade, não se perdem pela ausência de continuidade, quando os períodos governamentais se sucedem!

Outras há, de caráter urgente, nascidas em épocas anormais e para uma duração limitada que se eternizam, transformando-se em cabides de emprego, num duplo e autentico desvirtuamento de suas finalidades. (1966, 23-24)

 

            A despeito de a tendência, ao passar o tempo, seja que a realidade se dissolva e se instaure o imaginário, e a crônica, mesmo sendo ensaio, proceda a uma espécie de travessia para outro gênero, o que observamos, neste texto de Altamiro é exatamente a permanência do real, como que a ferir o brio do brasileiro. Um real singular, porque não muda de foco, apenas se avoluma pelo zoom que lhe impõe a própria realidade e, pior, a própria verdade do agora, vista pelo imaginário-real, uma vez que as coisas atinentes à política, em toda sua extensão, numa espécie de maldição, permanecem. Esse processo cria um tipo singular de ficção, à medida que ela é ficção-real e real-ficção. Em decorrência desse procedimento singular, a descrição do presente no ontem do texto espanta:

 

Os vícios quando prolongados por uma prática incessante, generalizam-se, lançando raízes profundas nos costumes, nem sempre insusceptíveis de contaminação. (1966, 24)

 

            Neste momento em que a honestidade é vista como uma idiotice, uma vez que os maus exemplos pululam, e a safadeza se transforma em práxis, verificamos que a nominação que o autor deu ao livro já sobrepõe a realidade à ficção. Mas, a constatação de que ela ainda fustiga o brasileiro e, em decorrência, empana o imaginário e impede que, na crônica, o gênero ensaio prepondere, mostra bem a consciência do narrador de estar realmente pensando, questionando, cientificamente, o momento histórico. Não sabia ele, entretanto, que seu discurso estaria tão vivo, a ponto de ferir a realidade presente:

 

A bola, o suborno, a percentagem ilícita, a propaganda mentirosa, o emprego público como base de negócios à sombra da complacência dos chefes, os desfalques que se multiplicam, evidentemente denunciam uma parte de grande série de males que infestam o ambiente brasileiro grandemente necessitado do oxigênio da moralização. (1966, 24)

 

            O real da crônica nos fornece o pensamento de um narrador que conhece a fundo a realidade que critica, desde sua configuração econômica até a corrupção sempre a corroer as finanças desses brasis. Mas, ele não se limita a criticar; apresenta como médico e cientista, segundo o pensamento da época, os meios para se curarem estes males. Para isso, utiliza a terminologia que lhe era próxima, em perfeita consonância entre o que defende e o que pratica. Todavia, ao acreditar que a construção de Brasília fosse uma das terapêuticas, soa, hoje, como ficção, como inserção da realidade no onírico, no imaginário, pois tudo continua como dantes na nova casa de Abrantes. O trecho anteriormente citado é intrigantemente hodierno.

            A última crônica (25-11-1960) da série revela a confiança que Altamiro tinha no futuro do Brasil, após a construção de Brasília, demonstrando alto espírito pátrio: a esperança de que houvesse melhorias econômicas e mais justiça social. Se naquele findar de década constituía uma visão onírico-ufanista da brasilidade, hoje materializa uma esperança que, a cada dia, mais se desfaz, como se o tempo, ao desfazer-nos a existência, também desfizesse os sonhos.

            Ele mesmo, em crônica de 24-10-1963, sintomaticamente intitulada Dias amargos, expõe sua desilusão e, sobretudo, a preocupação com o futuro do País, em face aos acontecimentos que se seguem ao mandato de Juscelino. Aquele que previa grandes dias de brasis, agora lança um olhar sinistro sobre a nação brasílica. Dois meses depois (22-12-1963), outra advertência sabiamente denominada Perspectiva inquietante, em que lança olhares de futuro negro nas proximidades do tempo, como lemos:

 

A impressão, aliás dolorosa, que hoje se tem neste infeliz Brasil, é a de que muitos dos nossos homens públicos não mais raciocinam. Parece-nos que um fluido estranho, pairando no ar, contamina os políticos, inibindo-os do uso dos mais comezinhos princípios de lógica, a ponto de não poderem nem mesmo pensar. Tanto assim é que, sob vistas complacentes e estranha conivência, em vala comum, sepultam-se idéias que outrora constituíram o pedestal da grandeza do europeu e as normas em que se apoiava o início de felicidade das Nações por ele formadas. (1966, 43)

 

            Impressionam-nos as inquietações do presente, à medida que entrevêem transformações, mesmo sem, aparentemente, sabê-las forma e conteúdo. Esse aparentemente nos leva ao real, momento histórico, e, ao imaginário, uma vez que, hoje, esta antevisão pode ser interpretada como percepção extra-sensorial da realidade ou como engajamento perfeito da conjuntura sócio-política de seu tempo. Preferimos falar em captação do real, tamanha a correlação que seu discurso estabelecerá com o futuro, não apenas o imediato, ocorrido a 31 de março daquele ano, como o mais longínquo, se virmos em suas palavras sibilantes o que ocorrerá nos governos Sarney e Collor:

 

Extinguindo-se o direito de propriedade, quando esta no Brasil é geralmente fruto de custosa poupança e de não pequenos sacrifícios, e incentivando-se a inflação, ora sem freios no desfiladeiro em que se encontra, João Goulart coroará sua obra nefasta, celebrizando-se como algoz do povo brasileiro e como eficiente coveiro da paz na América Latina. (1966, 45)

 

            A sensação do momento histórico é tão intensa, como se realmente Altamiro tivesse o dom da profecia, que se nessa crônica enxerga os dois possíveis caminhos a seguir por Goulart, na seguinte, Um homem que se impõe, de 18-3-1964, exalta a figura de Carlos Lacerda, personagem que, hoje, com a visão retrospectiva, verificamos ter sido importante naquele final de março. Não sem motivo, exalta-lhe a inteligência de administrador:

 

Se do polimorfismo de sua cultura, realçada pela honestidade de propósitos e elegância moral, surge o estadista esclarecido, do dinamismo, que não vacila, pela firmeza de orientação, emerge, para martírio de seus adversários e felicidade da Pátria, o administrador que reproduz os feitos de Cristiano IV, o rei arquiteto da Dinamarca. (1966, 47)

 

            O fecho da crônica novamente nos transporta da realidade para o imaginário, entendido como capacidade de ver além dos fatos, além dos acontecimentos. Hoje, diríamos que houve o canto das pedras, uma vez que a crônica seguinte, publicada na Folha de Goiás, em 10-4-1964, intitulada Exaltação, fala da grandeza das mulheres brasileiras que apoiavam a revolução e de seus sonhos de uma Pátria realmente justa e livre da horda de maus políticos:

 

Oh, mães, esposas e filhas do meu Brasil, como soubestes, no seio opulento das Alterosas, erguer e fazer ecoar o novo grito de independência à terra querida, porém vilipendiada, à Pátria indômita, porém encurralada pela horda de traidores, pela súcia de malandros, da mais baixa e nauseabunda politicagem! (1966, 51)

 

            Se nessas suas crônicas, Altamiro se ateve a aspectos políticos, filosóficos, econômicos, sociológicos, com olhares futuristas, em que o real se sobrepõe ao imaginário; mas com adornos literários, notadamente em relação à linguagem, na crônica Golden wedding, impõe, em decorrência do assunto, outro tom estilístico ao discurso que, se não esbulha a realidade, transforma-a em linguagem poética e instaura a literariedade. Além de revelar sua percepção do estético, demonstra forte espírito ecológico avant la lettre, se considerarmos que ainda hoje a ecologia é uma soft science. O estético se materializa nas imagens que ele utiliza para descrever a natureza e inserir o homem em sua relação perfeita masculino-feminino no natural das coisas:

 

A ciência deleita-nos; a arte aprimora-nos o sentimento estético, e a Natureza – no capricho e eloqüência de seus mistérios, entre auroras que esplendecem e crepúsculos de cetinosa suavidade; entre flores que aromatizam; cascatas que murmuram, e pássaros que entoam hinos e regozijo – arrebata-nos, e, arrebatando-nos, desperta-nos. (1966, 53).

 

            Seu espirito ecológico, voltado para a preservação, a despeito de pouco difundido à época*, revela sua antevisão do tempo notadamente na crônica de abertura de Rochedo e ferrolho, segundo livro em que realidade e ficção convivem de forma harmoniosa. Se nos textos do primeiro livro, a realidade, pela proximidade temporal e, também, pelo momento histórico, faz que a crônica realmente se exercite em sua acepção etimológica, em Meu jatobá, por nos colocarmos à distância em tempo e espaço, verificamos maior equilíbrio entre o real e o fictício. Em decorrência, vemos em sua revolta por haverem-no abatido o caráter reverberante do discurso como transformação da linguagem denotativa em conotativa. As imagens que o narrador usa para, à semelhança dos hinos aos deuses, fazer a apologia da árvore, fazem dessa crônica uma obra-prima da literatura sobre Goiânia e Brasília. Se não, vejamos:

 

Famoso Jatobá, tu, que te fazias de umbela gigante contra os rigores da canícula, e de guarda-chuva sempre aberto em oposição incessante aos aguaceiros semestrais; tu, que te havias por matusalênico no privilégio da constituição, e ainda em pleno estio da existência aguardavas a maioridade de Goiânia e o despontar de Brasília, tombaste à sanha traiçoeira de covarde sicário, acendendo-te aos pés proposital e criminosa fogueira! (19968, 11)

 

            O cronista não poupou termos para condenar a ação nefasta de quem queimou-lhe tronco e raízes não apenas por se constituir símbolo de Goiânia, à época, como, sobretudo, por representar a exuberância da vida. Vale a pena lermos mais um trecho deste texto encantatório:

 

Vítima da fereza que se não perdoa, experimentaste, prelibando ainda os louros da maturescência fecunda, o suplício dantesco do braseiro calcinante, paralisando-te o curso das atividades!

Silhueta destacada no reino da beleza panorâmica, ruíste sob a mira da inveja acoitada no peito estéril e bárbaro da ignorância que repudia o sublime da vida, e acolhe o mísero da irracionalidade! (1968, 11)

 

            Mas quem sabe os segredos do discurso literário, não atravessaria os mistérios da arte de enfeitiçar palavras sem produzir uma crônica inteiramente poética. Página filial é, sem dúvida, uma crônica-poema das mais profundas que se conhece sobre mãe. A tentativa de definir este ser singular chega verdadeiramente à metafísica em um duplo sentido. Primeiro, a essência do ser em si: mãe. Depois, à essência da linguagem, à medida que o narrador perscruta as nuances de uma gama de vocábulos – verbos, adjetivos, e substantivos –, para definir não apenas o ser mãe; mas indiretamente, também o ser filho. É um texto que deveria, como antigamente, ser recitado nas escolas e na vida que, esperamos, nela ainda se constrói.  

            Nesta crônica-poema, o real e o fictício se conjugam, mirando a um fim único: chegar à substância de uma verdade que ultrapassa o meramente material e se insere no sublime, entendido como a máxima capacidade de transcendência, mesmo que ela se dê por intermédio da linguagem.

            Verificamos, assim, que suas crônicas constituem verdadeiro acervo histórico, porquanto condensam a forma de pensar de um escritor de seu tempo e de tempos futuros, à medida que enfocam o pensamento, no mais amplo e no mais restrito sentido de uma época e do futuro. Trata-se, portanto, de um cronista raro na literatura goiana que, infelizmente, se esquece de seus vultos e, em decorrência, não os valoriza como eles merecem. Sobretudo, trata-se de um cronista que conhece os temas abordados, pois, além de possuir vasto saber, adquiridos aos livros, ainda vivencia-os como médico, como político, como economista, como pecuarista e, notadamente, como escritor.   

 

            2 – A FICÇÃO – AS PEDRAS DOS CANTOS

 

                   Definida a ficção como criação imaginária que conserva o sentido de imitação fantasiosa da realidade, a famosa mímese aristotélica, para analisarmos a obra literária de Altamiro de Moura Pacheco, impõe-se, todavia, outra distinção de caráter formal, a fim de que nosso trabalho não peque por falta de rigor crítico-literário: o conto e a novela. Entendemos conto como uma narrativa de ficção geralmente composta com poucos personagens, formada por um único conflito que tem de ser solucionado, de preferência em tempo e espaço limitados. Por sua vez, novela seria um texto em prosa, composto por núcleos dramáticos sucessivos, sem que haja um desfecho definitivo. Assim, a narrativa intitulada Adeus, Pilar, a despeito de sua extensão, é um conto, uma vez que, com a morte do protagonista, Fernando, é impossível continuar a narrativa.

            Mas o que chama a atenção já ao início do conto é a ironia ferina dispensada à personagem pelo narrador, uma vez que ele, talvez pela própria preguiça e pelas características positivistas que lhe são impressas, revela-se apenas meio homem: não ascende à condição de sujeito da história. Não sem razão, o protagonista se chama Fernando, nome que significa aquele que acrescenta. Entanto, a narrativa nos mostra a personagem a colher negativas, uma vez que inclusive a atividade mais apreciada lhe é negada pelo avanço da tecnologia, ao suprimir a necessidade do sineiro para chamar os fiéis às cerimônias religiosas.

            Se nas crônicas havia total supremacia do real sobre o fictício, neste conto, mesmo que a personagem tenha sido histórica, vários fatores contribuem para transpô-la para a dimensão do imaginário. Entre eles, sobressai a distância temporal, responsável pela completa diluição do real e sua conseqüente passagem para o ficcional. Depois, o protagonista se insere na semiosfera do arquétipo, à medida que representa tipos comuns existentes nas cidades interioranas brasileiras. Ora, a exploração de um arquétipo, nas circunstâncias narradas, transforma a narrativa em recriação do folclórico, à medida que a personagem se converte em fonte de inúmeras figuras populares a que os franceses chamam personnage-gigogne.    

            Já a arquitetura do conto Homo homini lupus é surpreendente, pela narrativa que explora a angústia de Mariquita, mãe de Antão Caramujo e, sobretudo, pela ironia que o narrador imprime ao discurso através dos nomes das personagens. O pai, próspero fazendeiro, é batizado por Melo Pires. Ora, considerando que Melo vem do latim merulus, que significa melro, traduz a despreocupação da personagem em relação ao filho, criado sem nenhum relacionamento com o trabalho. Além disso, sendo ave, parte cedo, deixando Antão órfão, e Mariquita, viúva. Pires, variante do nome Pedro, significa pedra, rocha, deveria ser forte, impor-se à mulher e à educação de Antão, mostrando-lhe a importância do trabalho; mas preferiu deixá-lo crescer em total indolência. Mariquita, hipocorístico de Maria, deveria ser realmente senhora e educar o filho para a vida, mas tendo o nome como diminutivo, omitiu-se inteiramente em relação à formação de um filho homem.

            Antão Caramujo, de forma mais irônica, sendo variante de Antônio, que significa aquele que faz frente, que é duro, ou que é chefe, materializa a indolência e a preguiça. Além disso, quem exerce o papel de chefe são as suas posses. Ao passar por processo de degradação financeira, perde também os relacionamentos e as amizades. Sendo Caramujo, faz valer o sentido de lesma, porquanto é preguiçoso e pegajoso em seu modo de falar, revelando-se inteiramente submisso.

            O administrador, a quem Caramujo confia a fazenda e todos os seus bens, não poderia encerrar maior ironia, pois, sendo Cotia, só poderia roer-lhe a fortuna. Ademais, possui sobrenome Raposo que, astutamente, consegue do preguiçoso uma procuração plenipotenciária com que vende a fazenda e foge. Mas, riso cruel se desprende do nome do comprador, Felisberto Macário. Felisberto sequer necessita declinar o significado, pois ficou inteiramente feliz com a aquisição. Mas, para mais cruel tornar-se a ironia, significa nobre feliz. Macário, do grego, Maka¢rioj, quer dizer feliz, bem-aventurado, cheio de riquezas. Vê-se, portanto, que o narrador foi impiedoso com as personagens, notadamente o desastradamente lesma, Caramujo, contraposto a uma personagem triplamente feliz.

            Mas, intrigante é o conto Madrugada perdida, em que inicia a narrativa com longo diálogo, sem que os falantes sejam identificados nominalmente. Trata-se de uma técnica a ser empregada, com a variante de o narrador só aparecer no terceiro parágrafo, por Osman Lins, no conto Os confundidos, de 1966, mesmo ano de publicação de Realidade e ficção, e pelo português Rubem A., no romance Silêncio para 4, de 1973, totalmente dialógico. Se no conto e no romance, o diálogo seria a diluição do ser e da verdade através da fala, no texto de Altamiro, constitui uma forma de o narrador que ouvira a conversa se eximir das opiniões emitidas pelas personagens a que apenas ouvira.      

            Finda a conversa entre os dois desconhecidos, Tancredo Antunes, o ouvinte, irá encontrar o amigo Tobias e lhe falará sobre o negro Pangô, inserto na conversa que se desenrolara. No novo diálogo que se estabelece, a seqüência narrativa é interrompida pelo barulho, empecilho à audição dos falantes e por rápida intervenção do Dr. Anastácio que atravessara em meio à comitiva do carro de som. O recurso se torna singular, porquanto permite ao narrador criticar os inúmeros ruídos já existentes em Goiânia, à época. Ao mesmo tempo, desvia o leitor do foco principal da conversa: discussão em torno da raça pura e, indiretamente, do abominável racismo, já ventilado pelas personagens do diálogo ouvido por Tobias.

            Além disso, Tancredo irá confirmar a essência de seu nome, ao entrar em reflexão profunda sobre a conversa, quando Tobias chega. Ora, o nome Tancredo revela a perspicácia do narrar de Altamiro, uma vez que significa, exatamente, o que medita as suas resoluções, os seus conselhos. A delicadeza do assunto abordado no conto, ligada à parca compreensão do conceito de raça, entendida sob a perspectiva do positivismo, notadamente o que relaciona o individuo ao meio e ao momento histórico, a ponto de o narrador citar Darwin e, para mais embasar seus argumentos, fazer referências que revelam seu pleno conhecimento dos filósofos e cientistas positivistas. A técnica utilizada pelo narrador para expor ficcionalmente um assunto delicado, decorrência do abominável preconceito, compreende também o nominação da personagem Tobias, pois, ao significar meu bem é Iavé, coloca-se acima das picuinhas humanas.

            Dentro da mesma filosofia, o narrador nomina a personagem Pangô, que em uma primeira interpretação, significa erva myrtácea que, segundo o positivismo, caracterizaria a pureza da raça, porquanto não permite transmutações genéticas. Assim, no momento em que Pangô aconselha a Aretusa não se casar com Jovelino, em decorrência das diferenças raciais, faz valer o significado de seu nome. Por outro lado, a significação de droga semelhante à maconha funciona na narrativa como ironia, uma vez que a personagem, ao contrário, é o perfeito exemplo de honestidade e de homem trabalhador cônscio de seus deveres. Entanto, em decorrência de ele pertencer à família lingüística banto, passa, no diálogo de Tancredo e Tobias, a chamar-se Banto, com a semia de homem, indivíduo, como a determinar-lhe a raça e a capacidade de se impor, mesmo exercendo a profissão de poteiro.

            Ao obedecer ao pai, Banto, que a impede de casar-se com Jovelino, Aretusa não exerce a essência do nome, uma vez que seria aquela que é contrária ao amor. Mas, mesmo amando e sofrendo, exercita o conceito de raça e desiste do namoro.

            O conto se torna singular, ao proceder a interculturalidade mediante os nomes, uma vez que Aretusa, sendo uma ninfa, pertence à mitologia grega. Do mesmo modo, Jovelino, sendo o protegido por Júpiter, da mitologia latina, instala ferina ironia, porquanto, a despeito de afirmar a pureza racial de Banto, também a nega, ao se estabelecer a interculturalidade. No fundo, o narrador goza dos preconceitos e nos oferece uma narrativa que também é um gozo: aquele proporcionado pelo prazer do texto e pelo prazer da descoberta de se sorver um discurso verdadeiramente estético.

            A leitura dos contos de Realidade e ficção surpreende a cada narrativa. O conto Finis coronat opus certamente, pela densidade filosófico-antropológica, à medida que narrador e personagens mergulham em intrincados problemas políticos enraizados na formação do povo brasileiro. Ao mesmo tempo, apresenta soluções, mediante a imitação de personagens históricas brasileiras e estrangeiras exemplares. Para isso, o protagonista é nomeado com parte dos nomes do pai e da mãe, a fim de encerrar essências similares às que lhes são inerentes. Assim, Brunater se compõe do brilho impresso ao nome de Bruno, e da semia puro, honesto, desprendida de Natércia. Tendo em vista a descrição inicial da personagem – Era um Apolo com toques de Antinoo – sua carreira política já se define, pois Apolo quer dizer aquele que conduz e Antinoo, símbolo da fidelidade. Além disso, o sobrenome Corinto confere à personagem um sentido de raridade, de uma espécie de nobreza incomum: aquele concernente ao caráter. Riganta, aquele que está no caminho certo, porque devidamente equipado culturalmente.

            Se conjugarmos a filosofia política que embasa o discurso narrativo com a necessária fidelidade de Brunater ao desembargador Martins e ao deputado Espíndola, o narrador, a despeito de empreender crítica explícita aos maus políticos, deixa a honestidade nas entrelinhas, como sendo um raro tesouro. As razoes do sucesso da personagem, considerando que o nome confere essência à coisa nominada, encontram-se na substância mesma do ser. A narrativa obedece a uma estrutura adrede planejada e, em decorrência, executada com o esmero imprescindível à instauração do estético. Para confirmar a consciência de estar produzindo um texto que, além de filosófico, de crítico, constitui uma verdadeira sátira ao brilho falso da maioria dos políticos, Brunater se casa com Hélvia, tão brilhante no nome e nas ações quanto ele.

            O segundo conto de Rochedo e ferrolho, Vida alegre e morte sorridente, erigiu-se, com certeza, sobre fatos reais não apenas pela referência a figuras históricas, como Senador Canedo e Leo Lynce; mas pelo registro de personagens conhecidas do escritor. Entanto, para o leitor o enredo em si faz parte apenas do imaginário, uma vez que desconhece os fatos e as pessoas reais que fizeram a história. Instaura-se, assim, o ficcional. Mas este conto se distingue pelo registro de usos e costumes que tendem a desaparecer com o advento da tecnologia, transformando o discurso ficcional em repositório de cultura, de cristalização de formas simples incrustadas no coração do todo, a ponto de constituir-se uma verdadeira narrativa etnográfica ficcional. O ato de cardar algodão executado por D. Zuca, a ação de tecê-lo e pintá-lo praticada pelas filhas, utilizando tintura de plantas ou mesmo o anil, cristaliza componentes da cultura.

            Além da tecelagem, a narrativa confere especial atenção ao fabrico de comidas típicas da zona rural, como biscoitos, queijo-de-leite, bom-bocado, broa de fubá, canjica, cuscuz, em que se ressaltam os dons culinários de D. Zuca. Mas, as referências às fogueiras, hoje apenas virtuais, nas festas de Santo Antônio, São João e São Pedro-São Paulo são realmente etnográficas, porquanto apresentam detalhes que serão motivo de estudo em futuro próximo, se o homem ainda cultivar o passado:

 

                        Época das fogueiras: Santo Antônio, São João, São Pedro.

Toda casa que tivesse um Antônio, João ou Pedro erguia, no dia correspondente ao nome do Santo, uma fogueira, proporcional à projeção, ao gosto e às posses do chefe da família.

Havia-as, por isso, grandes, médias e pequenas.

As grandes acompanhavam-se de levantamento de mastros, de pindaíba, esbranquiçados com tabatinga e pintados circularmente, à guisa de anéis, com pó de pedra tapiocanga e ocra amarela, mergulhados, um e outra, separadamente, em cola de couro de boi.

A bandeira tremulava açoitada pelo vento, e rugia no suporte, para orgulho do proprietário e vaidade dos amigos. (1968, 18).

 

            Nos chamados detalhes, o narrador sequer se esquece dos fogos, das comidas típicas, das músicas executadas à viola. Até a ironia aplicada a quem não gostasse destes encantos de sertão, o marido de D. Zuca, Quinca Joaquim, o narrador cristalizou no discurso proferido pelo festeiro:

 

“Se você aborrece esta terra com todos os seus encantos, engastada entre buritizais que nos inebriam com o deslizar da aragem entre os seus leques, em noites frias e aprazíveis, como esta, e não mais aprecia a convivência atraente com um povo com, como o nosso, então está saciado da vida, e já é um caso perdido. Peça logo a um Padre que, à cabeceira da cama, lhe diga:”Está chegando a hora, amigo; fale, aí, amém Jesus, irmão”.” (1968, 19).

 

            Além da cultura popular transposta para o discurso literário, a visão antropológica utilizada para descrever a personagem Quinca Joaquim é inteiramente positivista, uma vez que sobreleva as características intelectuais na visualização do homem em detrimento do aspecto físico e do temperamento primitivo. No homem civilizado, defende o equilíbrio entre o intelecto e o físico. Para isso, usa terminologia cientifica, a fim de definir o biotipo da personagem, como hipoestênico e não simpaticotônico, isto é, um indivíduo alto, magro e esbelto, com pele impecável, livre de qualquer ulceração.

            As referências às atividades desempenhadas por Quinca Joaquim, além de confirmarem a essência reduplicada pelo nome, aquele que Iavé elevou, o narrador retorna ao caráter etnográfico, sobretudo ao descrever o oratório fabricado pelo artista. A inscrição toponímica de Trindade em sua antiga denominação, Barro Preto, confere ao discurso certo descontentamento, decorrência de sermos um povo sem raízes culturais, em contraposição à técnica do passado, expressa em arte. A materialização do apego ao torrão natal se segue com verdadeiro ufanismo de ser goiano e pelo prazer de viver naquela cidade.

            A elevação de Quinca Joaquim à condição de delegado, além de confirmar-lhe o nome ainda revela outros predicados de homem respeitado. Mas, ao falar dos acontecimentos inerentes ao cargo de delegado, na verdade interessa-se por cristalizar aspectos culturais da região, como a festa do Divino, as Cavalhadas, sem deixar de lado o nome da carabina da época: papo-amarelo. O caráter burlesco das ações do delegado improvisado transpõe a personagem para o nível do picaresco, comum em pessoa não preparada para o cargo e, sobretudo, demasiado humana nestes interiores brasileiros. A ordem de soltura aos presos que aguardavam julgamento, a fim de que pudessem se espairecer, se torna risível em seu desfecho, quando diz aos presos que, na próxima vez que se atrasarem no retorno à prisão, dormirão na rua.

            Há episódios ocorridos com Quinca Joaquim, tanto como autoridade quanto, sobretudo, como comerciante, que convertem partes da narrativa em verdadeiras piadas. Ao rapaz que saíra da loja sem lhe pagar o chapéu, disse simplesmente: “Moço, por este preço, eu não lho posso vender” (1968, 26). Quinca Joaquim diversificava suas fontes de renda. Além da loja e da marcenaria, emprestava dinheiro aos fazendeiros. Um desses fregueses lhe devolveu todo o empréstimo com os devidos juros após um ano; mas pede-lhe os mesmos valores de volta. Porém, responde ao amigo:

 

“Leve o documento consigo, e guarde-o. daqui a oito dias, mande-mo por um de seus filhos, ou traga-mo pessoalmente, que o dinheiro irá. Desta vez, porém, não, e não. tem ele que dormir primeiro uma semana em minha casa, para eu não perder a sensação de que é meu, e meu mesmo. Sim”? (1968, 29-30).

 

            As atitudes de Quinca Joaquim são sempre inesperadas. Revelam uma personagem que possui excelente presença de espírito e saída imediata para problemas incomuns. Assim, atende a dois fregueses que desejam comprar a crédito. Aos dois argumenta mostrando as dificuldades para a cobrança, em decorrência das estradas lamacentas. Mas, de repente, resolve vender ao segundo, que compra mais do que pretendia. Os amigos que assim o viram agir, ficam intrigados:

 

“Poderia alguém compreender o porquê de sua tão rápida mudança de atitude? Para o que tem a porta constantemente limpa, nega; para o que a tem suja e tapizada de lama, vende”.

 – Sim; o que tem a porta limpa morando na roça, é preguiçoso que nada possui; e o que a tem com lama no curral, é trabalhador e, por isso, dotado de recursos. Merece crédito. Entendeu? (1968, 32).

 

            Mesmo em conto em que a ficção se sobrepõe à realidade, em que o bem, aparentemente inocente, se contrapõe ao mal, o narrador se utiliza do ficcional para soltar farpas irônicas contra os maus, mormente os políticos. Este tom crítico imprime ao conto aquele caráter peculiar ao discurso artístico: a ambigüidade e, sobretudo, a ideologia incrustada em uma filosofia que caminha subliminarmente em meio aos acontecimentos do imaginário. Neste jogo em que as verdades se escondem e se mostram nas entrelinhas da narrativa, o narrador exercita reflexões sociológico-históricas a fim de registrar a cidade inteira de seu nascimento mediante referência às famílias que a compõem. Ademais, para mais interagirem realidade e ficção, faz questão de colocar, no convívio do protagonista, personagens históricas, como que a homenageá-las mediante a cristalização do nome também no discurso fictício, como lemos neste excerto:

 

Mal sabíamos que alguns dos componentes, mais tarde, desempenhariam relevante papel na cidade e no Estado, tais como Manoel Umbelino, na Câmara dos Deputados, Egerineu Teixeira e José Lobo, na imprensa; e Vasco do Reis Gonçalves, na cátedra de medicina legal e na imprensa, na tribuna e no teatro, todos quatro de saudosa memória. (1968, 35).

 

            O fecho do conto inscreve no discurso o tom do imaginário, ao conferir à morte da personagem a sensação do ultra-real, como se a ponta da vida marcada pelo humor se juntasse à do além, também mediante o jogo que instaura o risível, inerente à simplicidade da grandeza do espírito de Quinca Joaquim.

            Se no conto anterior, o narrador cristalizou aspectos relevantes da cultura popular, inscritos, sob certo sentido, na própria personagem, à medida que ela seria um personnage gigogne, na novela A estrela de cada um, reserva espaço especial para a medicina popular e uma terminologia típica do sertão, ramo vivo de um relato que se quer também etnográfico. A personagem Lua Cheia justificava a preguiça que lhe peculiar, porquanto afirma haver tomado vários remédios caseiros:

 

– Já tomei lombrigueiro, infuso de losna e chá de hortelã, sem alcançar a cura pela qual tanto anseio.

 – Desta vez, não haverá hortelã nem losna, e, sim, massagem de rabo-de-tatu, cujo resultado é infalível, e melhor que benzimento. (1968, 39-40).

 

            O elenco de vocábulos que designam objetos e atividades típicos do viver em sertão é vasto e transforma realmente a narrativa em acervo etnográfico, sobretudo, se considerarmos o rareamento da medicina caseira e a possível extinção de muitas delas em face à expansão de tecnologia. O próprio nome atribuído ao peão encarregado de exemplar Lua Cheia, Piraguaio, certamente deve ser uma deturpação do gentílico paraguaio, ocorrido mediante o iotacismo, comum no falar sertanejo destes brasis. Além disso, o uso da palavra se assemelha ao uso da palavra “urovaio” pela personagem, quando chamava a atenção dos bois à descida das montanhas. Por outro lado, a raiz do nome Piraguaio pode constituir uma ironia, à medida que suas ações, marcadas pela calma e pelo pronto atender às pessoas, se contrapõem à semântica de fogo, pira. 

            A utilização das formas simples, além de cristalizar uma gama imensa de usos e costumes e, sobretudo, a linguagem, elemento essencial de revelação do ser sertanejo, ainda compreende aspectos intrínsecos ao ser da personagem, como a crença no sobrenatural inerente à magia negra, auxiliada pelo uso da pele de lobo. Para melhor instalar o fantástico, no exato sentido grego de fantasia, ao narrar as façanhas da caça aos guarás, carregava as tintas, a fim de impressionar os ouvintes e, mormente, instalar o tom arquetípico do imaginário, transformando o seu relato em verdadeira literatura oral:

 

Procurando-o com empenho, e caçando-o à maneira dos felinos, porque não tinha cão, sempre que lhe era possível, matava um, de preferência fora da época da rabugem, para que diminuído não fosse o valor da pele, a que atribuía virtudes mandingueiras de elevado alcance.

E sobre o encontro com os guarás, como ele os chamava, carregava nas cores da narrativa, enfatizando a habilidade com que vencia a astúcia desses curiosos visitantes dos galinheiros da roça, deixando, porém, transparecer propositadamente que algo de bruxedo havia nas suas atitudes.  (1968, 44-45).

 

            Até a figura mítica do homo viator, também uma espécie de personnage gigogne, o narrador explora neste conto. Não, na concepção metafísica de Gabriel Marcel; mas na concepção popular, comum nos meios rurais que, normalmente, confere a ele características especiais, seja na acepção do medo, mormente incutido às crianças, a fim de que se comportem, ou na impressa ao relato, em que se mostram aspectos supra-humanos ao protagonista.

 

As solitárias andanças a que periódica e perseverantemente se entregava, constituindo um enigma indecifrável para um meio onde os sortilégios da maior extravagância eram sem dificuldade acreditados, conferiam-lhe a terrível auréola de feiticeiro. Estava, em conseqüência, credenciado a permanecer na vida que lhe era do agrado. (1968, 45).

 

            Piraguaio é o contraponto de Lua Cheia: a ação contraposta à inanição; o trabalho, à preguiça; a bondade, à maldade; a coragem, ao medo; o fogo, à cinza. Mas, a caracterização de Lua Cheia, feita consoante os princípios da filosofia positivista, confere-lhe um singular primitivismo, que não prescinde dos caracteres zoomórficos, como o instinto de predador peculiar a lobos e tigres, como podemos ler neste excerto:

 

O instinto vingativo com traiçoeiras garras de felídeo, ao impulso da determinação de agir, aparecia pontiagudo e certeiro, retesado pelo músculo da vontade sem freios.

Paciente à oriental, frio e calculista, no íntimo, recebia as admoestações de Piraguaio como ignomínia, mas não as reciprocava; guardava-as com rancor sufocado a princípio, e com ódio a concentrar-se mais tarde. (1968, 48).

           

            A força da terra sobre o individuo, consoante lemos em Herbert Spencer (cf. 1880, 96), amoldava-o ao meio, a fim de alimentar-lhe a gula por alimentos e para manter-se no dolce far niente. As diferenças entre ele e Piraguaio operam-se em níveis diferentes, pois enquanto o primeiro era um homo viator que, a despeito de não atingir a consciência metafísica, se completava e se realizava mesmo enquanto ser social, Lua Cheia tornou-se homo viator por necessidade de manter-se no status quo da preguiça, da inteira falta de vontade de ser, a ponto de negar a própria identidade social. Como o narrador o afirma, O desleixo, amasiando-se com a ignorância, em rivalidade invicta com o trabalho, conferia-lhe a inalienabilidade do direito de ser, não o que devia ser, mas o que deseja continuar a ser. (1968, 54).

Não sem motivo, Lua Cheia chegará à fazenda do amigo do patrão guiado por um porquinho, também perdido e desorientado como ele. Como um animal selvagem, será atacado pelos cães e, posteriormente, como resultado, seus caracteres são descritos de forma a carregar todas as marcas do homem primitivo, atendendo à noção de atavismo proposta por Spencer (1880, 305-306), quando afirma que O atavismo é o nome que se dá ao retorno aos traços ancestrais, provado por fatos numerosos e variados. Nas galerias de quadros de velhas famílias, e sobre mesas de bronze monumentais conservadas em igrejas vizinhas, vemos freqüentemente tipos de fisionomia que, de tempos em tempos, se repetem nos membros destas famílias. Todo mundo pode perceber que certas doenças constitucionais, como gota ou a loucura, após haver desaparecido em uma geração, se mostra na seguinte. Ora, o atavismo intrínseco a Lua Cheia estabelece um contraponto dissonante com Piraguaio, pois, enquanto o segundo o odeia e manifesta na ira o seu lado animal, o primeiro, instado por Mumbuca – pessoa que faz valer a essência do nome, porque doce como a abelha que o nomeia –, pensa procurá-lo após cumpridas suas obrigações. Garante encontrá-lo esteja onde estiver.

Se Lua Cheia se opõe a Piraguaio, Cambará, o novo patrão do preguiçoso Lua Cheia, é o oposto do antigo, uma vez que é duro e acre. Por isso, não lhe permite o cultivo à indolência. Fá-lo trabalhar, a fim de ganhar o próprio sustento, além de, decorrência de sua fisionomia arbórea, incutir medo ao lesma inane. Todavia, Lua Cheia contraria o determinismo positivista e se transforma inteiramente, em decorrência do meio e da convivência com Piraguaio e, sobretudo, com Mumbuca, o homem só bondade. Lua Cheia, frio e calculista; mas dependente sempre do sol, Piraguaio, obriga-se a aceitá-lo como um mal necessário e, depois, como um coadjuvante imprescindível.

O modus narrandi dessa novela, contínuo-descontínuo, como as fases da lua, revela conhecimentos da arte de narrar, porquanto o narrador joga com os significados dos nomes das personagens e, sobretudo, com o suspense, imprescindível à apreensão do leitor. O fato de ele reservar verdadeiras surpresas para o desfecho, como o casamento de Piraguaio com Joaninha, que só aparece ao final, além de mostrar a bondade inerente a Mumbuca, deixa transparecer a intenção do narrador de disseminar o bem através de personagens marcadas pela responsabilidade e, sobretudo, pelo trabalho, pela conquista de melhores condições econômicas, como corolário da educação.       

            A intra-textualidade estabelecida entre o real e o imaginário na obra de Altamiro revela um narrador consciente do ato de registrar história e estória, de emitir o pensamento do autor e de reafirmá-lo através das personagens de ficção. Se em todas as narrativas observamos o diálogo da ficção com a realidade, do pensador com o ficcionista, na novela Rochedo e Ferrolho, resultante da nominação das personagens e da profissão a que cada um abraçou, ele se torna mais denso, transformando o discurso em uma espécie de diálogo platônico. O narrador, movido pela força dos nomes e pelo fato de serem professores, deles se utiliza para vergastar o sistema educacional brasileiro e, notadamente, o político. No político, sobretudo, não economiza ironia à administração pública, ao desprezo à dignidade do funcionalismo, à corrupção; mas também à péssima reputação imputada ao serviço público. Para mais evidenciá-los, enfatiza a vida simples e regrada dos dois amigos que, para irem ao teatro, tem de sacrificar o orçamento familiar por vários meses.

            A discussão dos mais variados assuntos faz dessa narrativa um verdadeiro tratado científico-filosófico, ao ponto de podermos nomeá-la como novela-ensaio. O momento histórico inteiro em que ela foi produzida está retratado no dialogismo operado entre as duas personagens, uma vez que cada uma defende pontos de vista quase sempre conflitantes; mas expostos de maneira a deixar também à participação do leitor. Assim, se em determinado momento discutem a guerra fria, a exploração de uma nação por outra, quando ocorrem dificuldades financeiras, em outro até noções de estética e de ecologia atinentes à modernidade são feitas com propriedade, como vemos neste excerto:

 

– Quem sabe se não são pródromos de novo modernismo (porque o primeiro já está meio envelhecido) a criar ambiente à arte de desmatar, para embelezamento de cidades, parques e jardins? Muita vez, nós é que estamos atrasados. Assim, por exemplo, nada entendo das mais modernas pinturas, não obstante a ciência de que para as compreender é mister saber interpretá-las.

– Momento há em que penso ser o modernismo uma capitulação. Parece-me incapacidade de um prosseguimento na obra dos clássicos, cuja perfeição não admite acréscimo ou modificações. O espírito humano, criador por excelência, saturado do que é bom, resvala-se para o abismo da imitação dos trabalhos primitivos, buscando nova aurora para a arte, e forçando o raciocínio com justificativas que não esclarecem, mas, com a técnica da repetição, tentam e logram alcançar o convencimento. (1968, 13).

 

            Durante a leitura chamou-nos a atenção o uso de figuras mitológicas para efetuar comparações com as personagens. Se pensávamos tratar-se apenas de vasto conhecimento demonstrado pelo ficcionista quando fazíamos a análise das demais narrativas, agora, ao nos depararmos com essa manifestação a respeito do modernismo, podemos falar da influência sofrida por ele na juventude e na idade madura, quando a estética clássica dominou a prática artística, ao ponto de os grandes escritores da modernidade a haverem conjugado com o moderno, como ocorreu aos neo-parnasianos ou neo-maneiristas. Além disso, a intenção de utilizar um estilo clássico, mesmo sendo moderno, o faz comparticipe da postura de Mário de Andrade (1974, 14) em relação ao passado: Sou passadista confesso. Ninguém pode se libertar duma só vez das teorias-avós que bebeu. É com estes olhos que entendemos um parágrafo como este:

 

Acompanhando a trasumância de seu espírito incansável, afigurou-se-lhe haver ressuscitado a Praxíteles[1]a fim de, com o cinzel de maior discípulo de Fídias[2],imortalizar, num escolhido monobloco de Carrara[3], essa nova Terpsícore[4] que não precisa de harpa nem diadema para, sobrepujando Phrynéa, ser o modelo definitivo de Vênus (1968, 133).

 

            A singularidade da beleza e do comportamento das personagens, mormente femininas mostrada mediante a utilização de figuras mitológicas, como as dríades, confere ao discurso, a despeito de em prosa, aquele tom neo-parnasiano típico dos poetas da chamada geração de 45. Como, cronologicamente, o ficcionista se situa em todas as fases do modernismo, explica-se, inclusive, a interação entre a mitologia grega e a cristã na configuração das personagens, uma vez que, enquanto Nicaula, a mãe, se assemelha à Diana, colocada no século XX, a filha é descrita como anjo que, pelas características, nada tem a ver com a noção grega de daimon. Este processo composicional, à semelhança do que fez Camões em Os Lusíadas, confere à narrativa a singularidade do estilo e da modernidade.

            Do mesmo modo, porém, que se volta ao passado da cultura, se coloca no presente e, sobretudo, na sua especialidade, ao usar terminologia médica para descrever o grau de paixão de Jacinto pela filha de Ferrolho.

            Como a narrativa se constrói ao tempo da existência real, uma vez que realidade e ficção se interagem, dias depois os amigos novamente se encontram. O narrador muda totalmente o tom da narrativa, uma vez que imprime ao momento forte sátira aos acontecimentos típicos da brasilidade, como a existência injustificada de inúmeros feriados e, sobretudo, dos chamados pontos facultativos. A sátira é clara, uma vez que o narrador não se esconde sob o artifício da ironia ou do humor e, sim, detona a práxis brasileira de se emendarem os feriados, como se isso não fosse prejudicial à economia do país:

 

No meio da semana, num feriado escolar e ponto facultativo, dos que se sucedem com preferência e sob o mínimo e injustificável pretexto, encontrou Ferrolho lendo O Estado de São Paulo, num dos bancos ainda não danificados da majestosa Avenida Goiás, proximidades da Praça Bandeirantes, entre roseiras floridas e um agrupamento álacre de moças. (1968, 135-136).

 

            Além da critica à preguiça nacional, gira sua metralhadora verbal contra a educação e a cultura do povo, ao mostrar que os bancos ainda não haviam sido danificados. Esta práxis maldita infesta as cidades e, comparando o real fictício da época com a realidade de hoje, verificamos que, em vez de essa desgraça haver minorado, ainda se tornou mais recrudescente, através dos protegidos pichadores.

            A inteligência do narrador confere à ficção a tonalidade do real e, sobretudo, como acontece no Brasil, desde Gregório de Matos, a atualidade das críticas às ideologias extremadas e à malandragem oficializada e protegida pelo poder público. O exemplo do mendigo que não era mendigo faz com que o texto pareça escrito aqui e agora, pois retrata uma realidade vivida naquele e, neste momento, ainda mais acintosa, porque a preguiça recebe todo amparo da demagogia política. O narrador não se contenta em mostrar o fato condenável, pois descreve a ferida e apresenta o tratamento e os medicamentos nunca ministrados pelos políticos:

 

Mas, com serenidade, e meditando um pouco, chega-se à conclusão de que se o brasileiro imitasse o que é bom, e quisesse de fato livrar-se de semelhante nódoa a manchar a nossa civilização, zelaria melhor dos incapacitados para o trabalho, e obrigaria os malandros a que ganhassem a vida com o suor do seu rosto. Faria como os nórdicos do Ocidente que solucionaram a questão da mendicância valorizando o indivíduo pela alfabetização, reeducando-o profissionalmente, e proibindo a esmola. E, enquanto nos países subdesenvolvidos, se multiplicam as reivindicações nutridas pela ignorância, as greves sem justificativa, os roubos e assassinatos, entre os nórdicos, a vida decorre sob a melodia do trabalho e as bênçãos da disciplina, como máximo de respeito ao princípio de autoridade. (1968, 141).

 

            O caráter satírico dessa passagem da narrativa é intrigante, porquanto extremamente atual, apesar de haverem passados mais de quarenta anos. O contraponto estabelecido pelo narrador mostra, como que com o dedo, exatamente o que ainda não se faz, ou melhor, o que ainda se faz ao contrário e de forma acentuada. A proposição de que se eduque o malandro, hoje, parece piada, uma vez que a malandragem s estende por todos os níveis sociais e econômicos, desde o pedinte aos chamados representantes do povo. É realmente estarrecedor observar o quão atual é o texto e, sobretudo, o quão se foge das propostas educacionais desse visionário realismo ficcional. Embora pareça que estamos nos servindo demais dos excertos da obra, fazemo-lo propositalmente, pois não deixaremos de proporcionar ao futuro estudioso da ficção altamiroana sua capacidade de enxergar o futuro com olhos de presente e o presente, com olhos de futuro, como vemos em mais este parágrafo:

 

Não será conveniente e mesmo necessário impedir que o malandro, pobre por camuflagem com a preguiça e a aliança com a má-fé, se aproveite da circunstância comovente da pobreza, e venha, como auxílio de leis demagógicas e o apoio de uma consciência mal formada, explorar os fortes (honestos, é claro) porque trabalharam e souberam economizar? (1968, 142).

 

            Uma conclusão não conclusiva da obra desse extraordinário goiano nos mostra que ele abordou de forma real e imaginária todos os problemas da vida nacional que, infelizmente, não se atém somente ao tempo em que foram móbeis de preocupação de quem viveu um país caótico e carnavalesco. A educação, sem dúvida, um de seus principais temas, hoje muito pior que há cinquenta anos, continua sendo plataforma de políticos desonestos. A cultura, de que se lhe desprende, nunca esteve tão aviltada, tratando apenas de interesses pessoais. A política, um horror, porquanto os políticos, nunca na história desse país, estiveram tão corruptos. As ciências evoluem apenas na estranja do Mario de Andrade. Aqui, regride, mormente na área da sociolingüística. O comércio exterior, não se sabe o que ocorre com ele, pois todas as nossas riquezas são exportadas, e o país permanece estaganado. Os transportes estão cada vez piores, pois um país sem estradas de ferro será sempre um país atrasado. O urbanismo, uma desgraça, pois Goiânia não se prepara para o futuro. O paisagismo agride, mormente, agora com o maldito código florestal. A administração pública, com os graves defeitos de sempre. A economia, sempre dependente e mentirosa. A agropecuária, talvez um dos poucos setores que evolui, porque não depende tanto de ações governamentais. A ecologia, coitada! Estão destruindo o planeta. Filosofia, só a da corrupção. Sociologia, só para efeitos demagógicos. Sentimento pátrio, nenhum!       

            Altamiro, assusta-nos como o Brasil que você tanto amou, esquece-se tão rapidamente de filhos tão ilustres como você! Sinto muito em dizer-lhe isso! É lamentável, porque você é um grande cidadão, um grande cientista, um grande administrador e, também, um grande ficcionista.                              

                                   

            BIBLIOGRAFIA

 

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BERNARD, Claude. Introduction à l’étude de la médicine experimentale. Paris: Delagrave, 1865.

CUNHA, Euclides da. Os sertões. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1940.

FERNANDES, José. O existencialismo na ficção brasileira. Goiânia: UFG, 1986.

FERNANDES, José. O interior da letra. Goiânia: SMC/Kelps., 2010.

PACHEDO, Altamiro de Moura. Realidade e ficção. Goiânia: Livraria Brasil Central Editora, 1966.

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SPENCER, Herbert. Principes de biologie. Paris: Livrairie Germer Baillière, 1880.

TAINE, Hippolyte. Histoire de la littérature anglaise. Paris : Hachette, 1866. 5 v.

 



* Desde os a¦poφeu¢gw po/lewj, presente nos idílios de Teócrito, e o fugere urbem, das bucólicas éclogas de Virgilio, que se pode falar nas diferenças entre a polis, a urbis e o meio-ambiente. A despeito de o bucolismo perpassar os séculos, sua correlação sempre se estabelece em oposição à cidade. A partir do século XX, porém, o voltar-se para a natureza passou a compreender a noção de preservação, de cuidados que o homem necessita ter com ela, uma vez que só a usou e usufruiu dela, sem nada lhe retribuir. Assim, no momento em que o homem vê a natureza como casa, oiªxoj, e estudo, lo¢goj, surge a ciência da casa, a ecologia, no sentido de estudo do meio-ambiente, entendido como casa cósmica.
[1] Praxiteles (Πραξιτέλης) (Atenas, c. 395 – 330 a.C.), foi um dos mais famosos escultores da Grécia Antiga. Várias obras de sua autoria, descritas na antigüidade, são conhecidas através de cópias romanas.
2. Fídias (em grego Φειδίας; Atenas, c. 490 — Olímpia ?, c. 430 a.C.) foi um célebre escultor da Grécia Antiga
 
[3]  O mármore de Carrara é famoso desde a Roma Antiga, quando foi utilizado para construir o Panteão. Muitas esculturas do Renascimento, como, por exemplo, o David de Michelangelo, também foram esculpidas em mármore de Carrara.
 
[4] Terpsícore ("a Rodopiante" ou "delícia da dança" — do grego τέρπω "deliciar" e χoρός "dança") é uma das nove musas da mitologia grega.