ENSINO E MENTIRA OU MENTIRA E ENSINO
– A cada resultado de exames que
apuram a qualidade do ensino no Brasil, a realidade cruel e a mentira se
digladiam. Se 55% dos médicos submetidos às provas do CREMESP não alcançaram as
notas reveladoras de conhecimentos mínimos para o exercício da profissão, como
nós, pacientes, poderemos confiar na Medicina? Se os culpados não forem as
universidades que proliferam pelo país, sem a menor condição de funcionamento,
de quem será a culpa? Se esse descalabro é observado no Estado de São Paulo,
considerado o melhor da federação, que dizermos de faculdades de fim de mundo,
onde inexistem professores qualificados para o exercício do magistério e, muito
menos, a infraestrutura indispensável ao aprendizado que se adquire mediante
estágios e residências? Que faz o MEC para coibir o péssimo ensino ministrado
pelas faculdades de medicina no país, se compete a ele autorizar e fiscalizar a
abertura e a continuidade do funcionamento das instituições? Será que o pessoal
que dirige o MEC não sabe que, às visitas de seus consultores, as faculdades,
mormente as particulares, armam verdadeiros circos para enganarem os
consultores? Será que não sabem que até professores com bons currículos são
convidados para comporem o quadro docente à abertura dos cursos e, uma vez
autorizado o curso, são dispensados? Será que sabem que as bibliotecas são
montadas para a visita e, depois, desmontadas, sobretudo quando a instituição
se compõe de vários campi? Será que sabem que contratam hospitais, clínicas e
laboratórios somente para o momento da visita, a fim de parecerem-se
devidamente equipadas para o ministério de um curso que formará pessoas de quem
dependerá a vida de uma vasta população? Será que sabem que esses circos se armam
para todos os cursos que as instituições ministram?
. – Engraçado, sempre me fiz essas
perguntas que você, como bom conhecedor dos dois lados do magistério ministrado
nesse País, o público e o privado, está se fazendo. Também sei que há
instituições sérias, tanto públicas, quanto particulares; mas sei, também, que
a maioria brinca de ensinar. Isso se revela, notadamente, quando o professor é
obrigado a aprovar o aluno para manter o seu emprego. Se não o fosse, como se
explica que uma turma de 60 alunos, por exemplo, não tenha nenhum aluno
reprovado durante o curso? Seriam todos gênios? A experiência me diz, mormente
em determinados cursos de graduação, composto por alunos trabalhadores, que
somente 10% dos alunos, se muito, merecem ser aprovados. Essa minha
preocupação, felizmente, é confirmada pelos dirigentes do CREMESP e, também,
por dirigentes da OAB, que também aquilatam os conhecimentos de seus
profissionais, a despeito de haver quem queira extinguir essa prática louvável
de selecionar quem realmente está capacitado para o exercício da profissão.
Aliás, ano sei por que razão o MEC queira desqualificar o exame do CREMESP, se
ele mesmo aplica, não sei com que seriedade, o famoso ENADE?
Estaria eu errado, ao fazer essas
ponderações a respeito do ensino da Medicina? Se estivesse, porque o ranking
das universidades, também vindo a público, mostra universidades e faculdades
que não alcançam a nota mínima necessária de um conhecimento imprescindível à
verdadeira qualificação da mão-de-obra nos diversos níveis de atendimento à
população? Há tanto tempo se vem aplicando esse ENAD e nada se tem feito, de
fato e de direito, para melhorar o ensino. As universidades e as faculdades
reprovadas continuam em funcionamento, como se nada lhes tivesse ocorrido. Não seria
isso uma forma de estelionato praticado pelas particulares que cobram
verdadeiras fortunas de mensalidade, sobretudo nos cursos de Medicina?
– Mas, assusta-me, sobremaneira, o
MEC tampar o sol com peneira, quando a verdade cruel do descalabro vem à tona?
Por que o MEC não estende a necessidade de provas de proficiência em todas as
áreas de conhecimento, todos os anos? Por que não exigir que os reprovados não
possam exercer a profissão? Se a quantidade de reprovados comprova a má
qualidade do ensino, por que não tornar mais rígidas as visitas dos
conselheiros e a imposição de maior rigor na autorização de funcionamento de
instituições de ensino? Por que não fechar aquelas que se mantem inoperantes e,
sobretudo, as que se maquiam para mostrar o que na verdade não são? Não estaria
chegando o momento de se acabar com o ato de fingir-se que se ensina e fazer-se
de conta que se aprende? Sem instituições sérias e sem professores realmente
qualificados, empenhados em ensinar os resultados de suas pesquisas e de sua
produção de conhecimento, o ato de ensinar não passa de brincadeira, porque a
função de uma universidade que realmente faz jus a esse nome, é produzir o
saber, contribuindo para o aperfeiçoamento da práxis cientifica.
– Na lista das universidades e das
faculdades espalhadas, aos milhares, por esses brasis, quantas verdadeiramente
fazem jus ao nome de universidade? Quantas realmente se preocupam com pesquisa?
Noventa e nove por cento não passam de dadoras de aulas, quando o são. Depois,
com essa história de ensino à distância, o ensino real, como se fazia
antigamente, em que o aluno era realmente objeto e sujeito da aprendizagem,
ficou realmente distante! O resultado está aí: só falta criar curso de
medicina, de odontologia, de fisioterapia, de farmácia, de biomedicina,
enfermagem etc., à distância.
– Olha que não é de se admirar que
isso ocorra, porque em um país carnaval em que tudo termina em samba ou pizza,
tudo pode acontecer! Se o MEC contesta prova aplicada por um órgão sério, como
o CREMESP, e, sobretudo, contesta a experiência de professores que veem a
Medicina como uma ciência que demanda aprendizado pautado por conhecimentos
teóricos e práticos, é porque o ensino, no fundo, não passa de fantasia e de
adereços! Miserere nobis, Domine!
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