NATAL
A mulher
que estilava feitiços
e grongas, engoliria a língua sibilina e
começaria a ver que
o sol sempre
nasceu para todos ;
basta empenhar-se na conquista dos segredos
da luz . Aqueles
que vivem o tédio
e a alegria do outro
sentiriam nela uma aliada e festejariam sua conversão
às hostes do amor .
Os homens
que ceifavam vidas
às árvores e aos animais ,
que poluíam os rios
e os mares , envenenavam o ar , assassinavam o silêncio
das cidades , dos bosques
e das cascatas , abaixariam a cabeça e sairiam do torpor
dos lucros e dividendos ,
pensando e sabendo as necessidades da natureza ... Veriam nela a extensão
do humano e procurariam devolver-lhe parte de sua humanidade .
O velho ,
carcomido pela insensibilidade
do tempo , sentiria a juventude
pulsar-lhe nas veias e abraçaria a amada e sairia dançando valsas
pelos bosques
e salões da felicidade .
O menino
maltrapilho que
pensava roupas limpas ,
comida à mesa ,
casa para morar , cabeça ao travesseiro , escola
para estudar , passeio de carro
aos domingos , acordaria no sonho do sonho
do direito e se veria na igualdade dos bens
que os outros
subtraíram à terra .
O mendigo
que dormia à calçada ,
alucinando cama quente
e macia , amanheceria cidadão , com casa , emprego , cidadania . Seria, de fato ,
homem humano .
O pedinte
que degusta cheiro
de carne assada
à churrasqueira , sentaria à mesa e almoçaria, todos
os dias , o Natal
do homem novo .
— Doentes
de todos os hospitais ,
Feliz Natal !
E eles afogariam suas
dores e se levantariam com a liberdade
de quem vence as maldades
do tempo , distribuindo risos a todos que lhes cruzassem
os caminhos .
— Feliz Natal , crianças
sujas, famintas, remelentas, tristes ! E elas , em toque de mágica ,
seriam vôos quiméricos
nascendo, qual flores ,
no jardim da infância ,
porque ainda
lhes seria permitido
criar castelos ,
visionar fadas ,
entressonhar meninices .
— Esqueletos
mortos-vivos de Ruanda, Somália, Etiópia, Sirilanka, brasis..., que sugam as secas
tetas das mães
morrentes, Feliz Natal !
Eles , apenas
ao som do nome ,
levantar-se-iam com o colostro do leite
verbal , correriam pelos
campos , subiriam em
pau de sebo
e, lá nas nuvens ,
energizariam os povos que nasceram para morrer de nada .
— Feliz
Natal! desejaria ao idoso abandonado no asilo . Ele
levantaria com a força
dos vinte anos , vestiria roupas de festa ,
pegaria um táxi ,
chegaria à casa , abraçaria parentes e amigos
e diria aos filhos : “Feliz
Natal , meus
filhos ! Aqui
estou para fazê-los crescer
segundo os mandamentos
da dignidade humana .”
— Feliz Natal ! E o ricaço autista encerrado em
sua torre
de marfim , descobriria a alteridade de sua
imagem no outro .
Perceberia que o poder
não se fecha
em si
mesmo , mas
existe, propaga-se e se avoluma à medida
que compreende o todo ,
em um
processo de interdependência ,
em que
a sinergia é indispensável .
Despencaria de seu ego
e abraçaria a multidão dos nadas que
perambulam pelas vias da miséria .
— Feliz Natal , senhores
políticos ! Diria eu ,
convicto de que a verdade
ainda é possível .
E eles , acordando da letargia
do solipsismo, ruborizar-se-iam ao olhar para o povo que lhes
conferira direitos de deuses e se lembrariam de que ,
até eles ,
um dia ,
foram destronados do culto dos homens .
Crônica publicaada no Diário da Manhã do dia 18-12-2012.
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