REALIDADE E
FICÇÃO – FICÇÃO E REALIDADE
A
realidade é definida como característica do que é real. Por sua vez, o real é o
que se opõe ao aparente, ao ilusório, ao fictício. Ao se falar sobre literatura
e, em decorrência, falar sobre o imaginário e, às vezes, até sobre o onírico, a
distinção entre realidade e ficção se impõe, e perguntas se levantam. Ora, em
que momento o fantasioso – devemos considerar que, em grego, tudo que se refere
ao imaginário se define como φαντασίωση ou φανταστικός – se desprega do real, e o real se desprende do
fictício, da fantasia, ou a realidade se separa da imaginação, em grego, φαντασία?
Se entendermos a realidade como um fato histórico acontecido e cristalizado
pela palavra, em que momento ele deixa de ser real, deixa de ser história e se
conforma ao ficcional, ao fantasioso? É possível, a um só tempo, ser real e
fictício?
As
respostas a estas interrogações têm de ser feitas de conformidade com o gênero
ficcional a que nos detivermos. Assim, se estivermos analisando um romance, como
Os sertões, colocamo-nos diante de
um fato histórico, que se tornou História, por intermédio de personagens reais,
localizadas em um tempo e em um espaço geograficamente definido. Como este fato
se transforma em ficção? A partir do momento em que a história passa para o
romance, realidade e ficção passam a conviver de tal maneira que a história
será estudada sob o aspecto cientifico-filosófico, e o imaginário, no sentido
grego de φανταστικός, mediante as teorias relacionados à narrativa de ficção,
pois, além de o discurso ser fictício-histórico ou histórico-fictício, a
distância temporal que se estabelece entre o passado e o presente insere a
história real na história ficcional, ou a realidade no imaginário.
Se não,
passemos para um fato ficcional, que os leitores não-mineiros ou distantes do ambiente
imaginário de Grande sertão: veredas
verão apenas como fantasia. O narrador Riobaldo, ainda no começo do romance,
nos diz que Na feira de São João Branco,
um homem andava falando: – “A pátria não pode nada com a velhice...” Discordo. A
pátria é dos velhos, mais. Era um homem maluco, os dedos cheios de anéis velhos sem valor, as pedras
retiradas – ele dizia: aqueles todos
anéis davam até choque elétrico... Não. Eu estou contando assim, porque é o meu jeito de contar. Guerras e batalhas? Ora, se São João Branco é um
espaço criado pelo ficcionista, o homem dos anéis é uma personagem de ficção. Todavia,
quando éramos menino, víamos nas festas religiosas realizadas no patrimônio de
Arco Verde, pertencente ao município de Alto Rio Doce, uma personagem idêntica
que, temos certeza, é a mesma que inspirou Guimarães Rosa, conhecida como
Joaquim Pequete. Para nós, portanto, ficção e realidade se imbricam no discurso
ficcional e realizam-se em um espaço real-fictício, como bem nos diz Carlos
Augusto de Figueiredo Monteiro: Em
verdade, toda uma trama, um enredo que se desenrola sobre uma cena, tudo que é
narrado num romance, acontece ("tem lugar") num continuum espacial mais ou menos
definido, e a participação do leitor – que não é totalmente passiva como na
leitura jornalística – tende a identificá-la a uma realidade concreta, ou seja,
"geográfica". Mas, em tanto que na criação artística, ficcional,
haverá, forçosamente, um "espaço artístico" que não pode ser reduzido
aos limites estreitos de uma paisagem real. A imbricação da ficção com a
realidade, neste caso, além de instaurar-se mediante a estética que perpassa o
discurso, intencionalmente fictício, ainda cede espaço à perspectiva do leitor.
Se essa
conjunção entre realidade e ficção é visualizada em gêneros narrativos longos,
em narrativas curtas, como o conto e a crônica, ela é praticada sobejamente. Só
que, ao submeter o real à construtura do discurso artístico e transformá-lo em
linguagem, ele assume, também, as feições de literatura; ele adquire
literariedade. Estas reflexões se nos impuseram pelos livros Realidade e ficção e Rochedo e ferrolho, do ilustre goiano
Altamiro de Moura Pacheco, compostos de contos, crônicas e novelas a que
analisaremos neste breve estudo.
1 – REALIDADE – O CANTO DAS PEDRAS
A
realidade, correlacionada com o conhecimento, em que se propõem ou se discutem
dados empíricos, cientifica e historicamente, além de se conjugar com o fictício
no conto, no teatro, na poesia, notadamente a popular, e no romance, é
cristalizada sob a forma de crônica: gênero literário extremamente versátil,
pois se permite revelar em inúmeras faces ou em inúmeras espécies que atendem
ao discurso jornalístico e ao estético. Ela consegue ser poesia e ensaio sobre
todos os assuntos – história, filosofia, política, economia, teosofia, psicanálise,
sociologia, critica literária –; mas para permanecer, porque a arte é o contrário
do tempo, ela tem de quadrar-se ao estatuto ontológico da literatura, caracterizado
por uma linguagem que instaure o estético, ou ao estatuto da história, em seu
sentido amplo de cristalização de fatos e conhecimentos que marcam a evolução
da humanidade. Assim, atendo-nos às cinco crônicas que abrem o livro Realidade e ficção, intituladas O
Brasil após Brasília, verificamos que elas encerram perspectivas
futuristas em relação ao Brasil que fazem de Altamiro não apenas um dos primeiros
cronistas da nova capital; mas, sobretudo, registram o pensamento de um escritor
de visão ampla da realidade brasileira da época. Suas reflexões, na primeira
crônica (3-11-1960) revelam forte crítica à ocupação desordenada das regiões
que compõem o Brasil, responsável pelo desenvolvimento de umas e retardamento
de outras. Mesmo dizendo-se isento de conceitos filosóficos, é claro ao
rechaçar explicações positivistas para a indolência do brasileiro, razão, para
alguns, da fraca visão administrativa que justifica, pela própria raça, o
caráter irresponsável do povo. A saída para a irresponsabilidade é o trabalho
e, em termos de brasilidade, a construção de Brasília, que trará o
desenvolvimento igualitário do País.
Na segunda
crônica (8-11-1960), são apresentados os meios necessários ao desenvolvimento da
Nação. Ressalta, em primeiro lugar, a ordem e a disciplina, pois é através
delas que as organizações de poucos se consolidam para o trabalho de muitos. A conjunção do trabalho com a economia,
inclusive mediante criação de cooperativas, constitui, em poucas linhas, verdadeira
lição de administração. Do mesmo modo, sua intelecção da necessidade da
educação e de como ela tem de ser implementada também é fascinante, à medida
que, através dela, se desenvolvem o trabalho, a empresa, o estado e, em decorrência,
o cidadão.
Na
crônica III (13-11-1960), ele reforça a imprescindibilidade do trabalho, ao
ponto de dar lições aos assistencialistas de plantão hodiernos, incentivadores
da preguiça e do aviltamento do homem. Se não, vejamos um trecho desse discurso
real-imaginário para a atualidade:
Chovendo ou fazendo sol, calor ou frio, o
homem deve trabalhar.
Sem trabalho, a vida se avilta: o
intelectual se vulgariza e o operário se resvala da decadência à mendicância,
engrossando o rol das dificuldades sociais.
Com o trabalho, a vida se
enobrece: o intelectual evolui e o operário se eleva, granjeando meios para a
própria subsistência e contribuindo para a solução dos problemas afetos à
sociedade que o acolhe.
O estado, nem sempre certo e
muita vez reincidente em erros por imitação inadequada, cada vez maior pela
tutela que lhe é imposta, em progressiva socialização, cria e modifica, amplia
e restringe os horizontes do trabalho à medida que os regimes políticos se
sucedem ou se reformam. (1966, 19)
A correlação que
ele estabelece entre trabalho, técnica e ciência para o perfeito funcionamento
da economia e do estado, transcende nossos dias, pela atualidade dos conceitos
e, sobretudo, pelo fato de passados cinqüenta anos ainda não terem sido postos
em prática.
A realidade, entendida como fenômeno empírico
em constatação ou constatável, confirmado ainda pela observação, presente na
crônica IV (25-11-1960) é chocante, sobretudo por se conformar também à verdade
cientifica de que se não pode discordar. O que disse ele, há exatamente
cinqüenta anos, que não se verifica neste momento em que passamos a lê-lo?:
A imprevidência tem sido amiga
constante da administração pública em nosso País, onde quase nada se realiza, sem que
primeiro se ouçam os brados angustiantes da necessidade imediata.
Quanta cousa se conhece, por aí
além, planejada em horas de apertos e que somente produzem frutos
desassazonados!
Quanta paliação na precariedade
de medidas tomadas por interesse, que não aproveita ao País, debilitando as
finanças públicas e prejudicando a iniciativa particular!
Além de obras circunscritas às pedras
fundamentais, já sepultadas pelo esquecimento, quantas, embora de real
utilidade, não se perdem pela ausência de continuidade, quando os períodos
governamentais se sucedem!
Outras há, de caráter urgente,
nascidas em épocas anormais e para uma duração limitada que se eternizam,
transformando-se em cabides de emprego, num duplo e autentico desvirtuamento de
suas finalidades. (1966, 23-24)
A
despeito de a tendência, ao passar o tempo, seja que a realidade se dissolva e
se instaure o imaginário, e a crônica, mesmo sendo ensaio, proceda a uma
espécie de travessia para outro gênero, o que observamos, neste texto de
Altamiro é exatamente a permanência do real, como que a ferir o brio do
brasileiro. Um real singular, porque não muda de foco, apenas se avoluma pelo
zoom que lhe impõe a própria realidade e, pior, a própria verdade do agora,
vista pelo imaginário-real, uma vez que as coisas atinentes à política, em toda
sua extensão, numa espécie de maldição, permanecem. Esse processo cria um tipo
singular de ficção, à medida que ela é ficção-real e real-ficção. Em decorrência
desse procedimento singular, a descrição do presente no ontem do texto espanta:
Os vícios quando prolongados por
uma prática incessante, generalizam-se, lançando raízes profundas nos costumes,
nem sempre insusceptíveis de contaminação. (1966, 24)
Neste
momento em que a honestidade é vista como uma idiotice, uma vez que os maus
exemplos pululam, e a safadeza se transforma em práxis, verificamos que a nominação
que o autor deu ao livro já sobrepõe a realidade à ficção. Mas, a constatação
de que ela ainda fustiga o brasileiro e, em decorrência, empana o imaginário e
impede que, na crônica, o gênero ensaio prepondere, mostra bem a consciência do
narrador de estar realmente pensando, questionando, cientificamente, o momento
histórico. Não sabia ele, entretanto, que seu discurso estaria tão vivo, a
ponto de ferir a realidade presente:
A bola, o suborno, a percentagem
ilícita, a propaganda mentirosa, o emprego público como base de negócios à
sombra da complacência dos chefes, os desfalques que se multiplicam,
evidentemente denunciam uma parte de grande série de males que infestam o
ambiente brasileiro grandemente necessitado do oxigênio da moralização. (1966,
24)
O real da crônica
nos fornece o pensamento de um narrador que conhece a fundo a realidade que
critica, desde sua configuração econômica até a corrupção sempre a corroer as
finanças desses brasis. Mas, ele não se limita a criticar; apresenta como
médico e cientista, segundo o pensamento da época, os meios para se curarem
estes males. Para isso, utiliza a terminologia que lhe era próxima, em perfeita
consonância entre o que defende e o que pratica. Todavia, ao acreditar que a
construção de Brasília fosse uma das terapêuticas, soa, hoje, como ficção, como
inserção da realidade no onírico, no imaginário, pois tudo continua como dantes
na nova casa de Abrantes. O trecho anteriormente citado é intrigantemente hodierno.
A
última crônica (25-11-1960) da série revela a confiança que Altamiro tinha no
futuro do Brasil, após a construção de Brasília, demonstrando alto espírito
pátrio: a esperança de que houvesse melhorias econômicas e mais justiça social.
Se naquele findar de década constituía uma visão onírico-ufanista da
brasilidade, hoje materializa uma esperança que, a cada dia, mais se desfaz,
como se o tempo, ao desfazer-nos a existência, também desfizesse os sonhos.
Ele
mesmo, em crônica de 24-10-1963, sintomaticamente intitulada Dias
amargos, expõe sua desilusão e, sobretudo, a preocupação com o futuro
do País, em face aos acontecimentos que se seguem ao mandato de Juscelino.
Aquele que previa grandes dias de brasis, agora lança um olhar sinistro sobre a
nação brasílica. Dois meses depois (22-12-1963), outra advertência sabiamente
denominada Perspectiva inquietante, em que lança olhares de futuro negro
nas proximidades do tempo, como lemos:
A impressão, aliás dolorosa, que
hoje se tem neste infeliz Brasil, é a de que muitos dos nossos homens públicos
não mais raciocinam. Parece-nos que um fluido estranho, pairando no ar,
contamina os políticos, inibindo-os do uso dos mais comezinhos princípios de
lógica, a ponto de não poderem nem mesmo pensar. Tanto assim é que, sob vistas
complacentes e estranha conivência, em vala comum, sepultam-se idéias que
outrora constituíram o pedestal da grandeza do europeu e as normas em que se
apoiava o início de felicidade das Nações por ele formadas. (1966, 43)
Impressionam-nos
as inquietações do presente, à medida que entrevêem transformações, mesmo sem,
aparentemente, sabê-las forma e conteúdo. Esse aparentemente nos leva ao real, momento histórico, e, ao imaginário,
uma vez que, hoje, esta antevisão pode ser interpretada como percepção
extra-sensorial da realidade ou como engajamento perfeito da conjuntura
sócio-política de seu tempo. Preferimos falar em captação do real, tamanha a
correlação que seu discurso estabelecerá com o futuro, não apenas o imediato,
ocorrido a 31 de março daquele ano, como o mais longínquo, se virmos em suas
palavras sibilantes o que ocorrerá nos governos Sarney e Collor:
Extinguindo-se o direito de
propriedade, quando esta no Brasil é geralmente fruto de custosa poupança e de
não pequenos sacrifícios, e incentivando-se a inflação, ora sem freios no
desfiladeiro em que se encontra, João Goulart coroará sua obra nefasta,
celebrizando-se como algoz do povo brasileiro e como eficiente coveiro da paz
na América Latina. (1966, 45)
A
sensação do momento histórico é tão intensa, como se realmente Altamiro tivesse
o dom da profecia, que se nessa crônica enxerga os dois possíveis caminhos a
seguir por Goulart, na seguinte, Um homem que se impõe, de 18-3-1964,
exalta a figura de Carlos Lacerda, personagem que, hoje, com a visão
retrospectiva, verificamos ter sido importante naquele final de março. Não sem
motivo, exalta-lhe a inteligência de administrador:
Se do polimorfismo de sua
cultura, realçada pela honestidade de propósitos e elegância moral, surge o
estadista esclarecido, do dinamismo, que não vacila, pela firmeza de
orientação, emerge, para martírio de seus adversários e felicidade da Pátria, o
administrador que reproduz os feitos de Cristiano IV, o rei arquiteto da
Dinamarca. (1966, 47)
O fecho da crônica
novamente nos transporta da realidade para o imaginário, entendido como
capacidade de ver além dos fatos, além dos acontecimentos. Hoje, diríamos que
houve o canto das pedras, uma vez que a crônica seguinte, publicada na Folha de Goiás, em 10-4-1964, intitulada
Exaltação,
fala da grandeza das mulheres brasileiras que apoiavam a revolução e de seus
sonhos de uma Pátria realmente justa e livre da horda de maus políticos:
Oh, mães, esposas e filhas do meu
Brasil, como soubestes, no seio opulento das Alterosas, erguer e fazer ecoar o
novo grito de independência à terra querida, porém vilipendiada, à Pátria
indômita, porém encurralada pela horda de traidores, pela súcia de malandros,
da mais baixa e nauseabunda politicagem! (1966, 51)
Se
nessas suas crônicas, Altamiro se ateve a aspectos políticos, filosóficos, econômicos,
sociológicos, com olhares futuristas, em que o real se sobrepõe ao imaginário;
mas com adornos literários, notadamente em relação à linguagem, na crônica Golden
wedding, impõe, em decorrência do assunto, outro tom estilístico ao
discurso que, se não esbulha a realidade, transforma-a em linguagem poética e
instaura a literariedade. Além de revelar sua percepção do estético, demonstra
forte espírito ecológico avant la lettre,
se considerarmos que ainda hoje a ecologia é uma soft science. O estético
se materializa nas imagens que ele utiliza para descrever a natureza e inserir
o homem em sua relação perfeita masculino-feminino no natural das coisas:
A ciência deleita-nos; a arte
aprimora-nos o sentimento estético, e a Natureza – no capricho e eloqüência de
seus mistérios, entre auroras que esplendecem e crepúsculos de cetinosa
suavidade; entre flores que aromatizam; cascatas que murmuram, e pássaros que
entoam hinos e regozijo – arrebata-nos, e, arrebatando-nos, desperta-nos.
(1966, 53).
Seu espirito ecológico,
voltado para a preservação, a despeito de pouco difundido à época
, revela sua antevisão do tempo notadamente
na crônica de abertura de
Rochedo e
ferrolho, segundo livro em que realidade e ficção convivem de forma harmoniosa.
Se nos textos do primeiro livro, a realidade, pela proximidade temporal e, também,
pelo momento histórico, faz que a crônica realmente se exercite em sua acepção
etimológica, em
Meu jatobá, por nos colocarmos à distância em tempo e espaço,
verificamos maior equilíbrio entre o real e o fictício. Em decorrência, vemos
em sua revolta por haverem-no abatido o caráter reverberante do discurso como
transformação da linguagem denotativa
em conotativa. As
imagens que o narrador usa para, à semelhança dos hinos aos deuses, fazer a
apologia da árvore, fazem dessa crônica uma obra-prima da literatura sobre
Goiânia e Brasília. Se não, vejamos:
Famoso Jatobá, tu, que te fazias
de umbela gigante contra os rigores da canícula, e de guarda-chuva sempre
aberto em oposição incessante aos aguaceiros semestrais; tu, que te havias por
matusalênico no privilégio da constituição, e ainda em pleno estio da
existência aguardavas a maioridade de Goiânia e o despontar de Brasília,
tombaste à sanha traiçoeira de covarde sicário, acendendo-te aos pés proposital
e criminosa fogueira! (19968, 11)
O cronista não
poupou termos para condenar a ação nefasta de quem queimou-lhe tronco e raízes
não apenas por se constituir símbolo de Goiânia, à época, como, sobretudo, por
representar a exuberância da vida. Vale a pena lermos mais um trecho deste
texto encantatório:
Vítima da fereza que se não
perdoa, experimentaste, prelibando ainda os louros da maturescência fecunda, o
suplício dantesco do braseiro calcinante, paralisando-te o curso das
atividades!
Silhueta destacada no reino da
beleza panorâmica, ruíste sob a mira da inveja acoitada no peito estéril e
bárbaro da ignorância que repudia o sublime da vida, e acolhe o mísero da
irracionalidade! (1968, 11)
Mas quem sabe os
segredos do discurso literário, não atravessaria os mistérios da arte de
enfeitiçar palavras sem produzir uma crônica inteiramente poética. Página
filial é, sem dúvida, uma crônica-poema das mais profundas que se
conhece sobre mãe. A tentativa de definir este ser singular chega
verdadeiramente à metafísica em um duplo sentido. Primeiro, a essência do ser
em si: mãe. Depois, à essência da linguagem, à medida que o narrador perscruta
as nuances de uma gama de vocábulos – verbos, adjetivos, e substantivos –, para
definir não apenas o ser mãe; mas indiretamente, também o ser filho. É um texto
que deveria, como antigamente, ser recitado nas escolas e na vida que,
esperamos, nela ainda se constrói.
Nesta
crônica-poema, o real e o fictício se conjugam, mirando a um fim único: chegar
à substância de uma verdade que ultrapassa o meramente material e se insere no
sublime, entendido como a máxima capacidade de transcendência, mesmo que ela se
dê por intermédio da linguagem.
Verificamos,
assim, que suas crônicas constituem verdadeiro acervo histórico, porquanto
condensam a forma de pensar de um escritor de seu tempo e de tempos futuros, à
medida que enfocam o pensamento, no mais amplo e no mais restrito sentido de
uma época e do futuro. Trata-se, portanto, de um cronista raro na literatura
goiana que, infelizmente, se esquece de seus vultos e, em decorrência, não os
valoriza como eles merecem. Sobretudo, trata-se de um cronista que conhece os
temas abordados, pois, além de possuir vasto saber, adquiridos aos livros,
ainda vivencia-os como médico, como político, como economista, como pecuarista
e, notadamente, como escritor.
2 – A FICÇÃO – AS PEDRAS DOS CANTOS
Definida a ficção como criação
imaginária que conserva o sentido de imitação fantasiosa da realidade, a famosa
mímese aristotélica, para analisarmos a obra literária de Altamiro de Moura
Pacheco, impõe-se, todavia, outra distinção de caráter formal, a fim de que
nosso trabalho não peque por falta de rigor crítico-literário: o conto e a
novela. Entendemos conto como uma narrativa de ficção geralmente composta com
poucos personagens, formada por um único conflito que tem de ser solucionado,
de preferência em tempo e espaço limitados. Por sua vez, novela seria um texto
em prosa, composto por núcleos dramáticos sucessivos, sem que haja um desfecho
definitivo. Assim, a narrativa intitulada Adeus, Pilar, a despeito de sua extensão,
é um conto, uma vez que, com a morte do protagonista, Fernando, é impossível
continuar a narrativa.
Mas
o que chama a atenção já ao início do conto é a ironia ferina dispensada à
personagem pelo narrador, uma vez que ele, talvez pela própria preguiça e pelas
características positivistas que lhe são impressas, revela-se apenas meio
homem: não ascende à condição de sujeito da história. Não sem razão, o
protagonista se chama Fernando, nome que significa aquele que acrescenta. Entanto, a narrativa nos mostra a personagem
a colher negativas, uma vez que inclusive a atividade mais apreciada lhe é
negada pelo avanço da tecnologia, ao suprimir a necessidade do sineiro para
chamar os fiéis às cerimônias religiosas.
Se
nas crônicas havia total supremacia do real sobre o fictício, neste conto,
mesmo que a personagem tenha sido histórica, vários fatores contribuem para transpô-la
para a dimensão do imaginário. Entre eles, sobressai a distância temporal,
responsável pela completa diluição do real e sua conseqüente passagem para o
ficcional. Depois, o protagonista se insere na semiosfera do arquétipo, à
medida que representa tipos comuns existentes nas cidades interioranas
brasileiras. Ora, a exploração de um arquétipo, nas circunstâncias narradas,
transforma a narrativa em recriação do folclórico, à medida que a personagem se
converte em fonte de inúmeras figuras populares a que os franceses chamam personnage-gigogne.
Já
a arquitetura do conto Homo homini lupus é surpreendente, pela narrativa que
explora a angústia de Mariquita, mãe de Antão Caramujo e, sobretudo, pela
ironia que o narrador imprime ao discurso através dos nomes das personagens. O
pai, próspero fazendeiro, é batizado por Melo Pires. Ora, considerando que Melo
vem do latim merulus, que significa
melro, traduz a despreocupação da personagem em relação ao filho, criado sem
nenhum relacionamento com o trabalho. Além disso, sendo ave, parte cedo,
deixando Antão órfão, e Mariquita, viúva. Pires, variante do nome Pedro,
significa pedra, rocha, deveria ser forte, impor-se à mulher e à educação de
Antão, mostrando-lhe a importância do trabalho; mas preferiu deixá-lo crescer
em total indolência. Mariquita, hipocorístico de Maria, deveria ser realmente
senhora e educar o filho para a vida, mas tendo o nome como diminutivo,
omitiu-se inteiramente em relação à formação de um filho homem.
Antão
Caramujo, de forma mais irônica, sendo variante de Antônio, que significa
aquele que faz frente, que é duro, ou que é chefe, materializa a indolência e a
preguiça. Além disso, quem exerce o papel de chefe são as suas posses. Ao
passar por processo de degradação financeira, perde também os relacionamentos e
as amizades. Sendo Caramujo, faz valer o sentido de lesma, porquanto é
preguiçoso e pegajoso em seu modo de falar, revelando-se inteiramente submisso.
O
administrador, a quem Caramujo confia a fazenda e todos os seus bens, não poderia
encerrar maior ironia, pois, sendo Cotia, só poderia roer-lhe a fortuna.
Ademais, possui sobrenome Raposo que, astutamente, consegue do preguiçoso uma
procuração plenipotenciária com que vende a fazenda e foge. Mas, riso cruel se
desprende do nome do comprador, Felisberto Macário. Felisberto sequer necessita
declinar o significado, pois ficou inteiramente feliz com a aquisição. Mas,
para mais cruel tornar-se a ironia, significa nobre feliz. Macário, do grego, Maka¢rioj,
quer dizer feliz, bem-aventurado, cheio de riquezas. Vê-se, portanto, que
o narrador foi impiedoso com as personagens, notadamente o desastradamente
lesma, Caramujo, contraposto a uma personagem triplamente feliz.
Mas,
intrigante é o conto Madrugada perdida, em que inicia a
narrativa com longo diálogo, sem que os falantes sejam identificados
nominalmente. Trata-se de uma técnica a ser empregada, com a variante de o
narrador só aparecer no terceiro parágrafo, por Osman Lins, no conto Os
confundidos, de 1966, mesmo ano de publicação de Realidade e ficção, e pelo português Rubem A., no romance Silêncio para 4, de 1973, totalmente
dialógico. Se no conto e no romance, o diálogo seria a diluição do ser e da verdade
através da fala, no texto de Altamiro, constitui uma forma de o narrador que
ouvira a conversa se eximir das opiniões emitidas pelas personagens a que
apenas ouvira.
Finda
a conversa entre os dois desconhecidos, Tancredo Antunes, o ouvinte, irá
encontrar o amigo Tobias e lhe falará sobre o negro Pangô, inserto na conversa
que se desenrolara. No novo diálogo que se estabelece, a seqüência narrativa é
interrompida pelo barulho, empecilho à audição dos falantes e por rápida
intervenção do Dr. Anastácio que atravessara em meio à comitiva do carro de
som. O recurso se torna singular, porquanto permite ao narrador criticar os
inúmeros ruídos já existentes em Goiânia, à época. Ao mesmo tempo, desvia o
leitor do foco principal da conversa: discussão em torno da raça pura e,
indiretamente, do abominável racismo, já ventilado pelas personagens do diálogo
ouvido por Tobias.
Além
disso, Tancredo irá confirmar a essência de seu nome, ao entrar em reflexão
profunda sobre a conversa, quando Tobias chega. Ora, o nome Tancredo revela a
perspicácia do narrar de Altamiro, uma vez que significa, exatamente, o que medita as suas resoluções, os seus
conselhos. A delicadeza do assunto abordado no conto, ligada à parca
compreensão do conceito de raça, entendida sob a perspectiva do positivismo, notadamente
o que relaciona o individuo ao meio e ao momento histórico, a ponto de o
narrador citar Darwin e, para mais embasar seus argumentos, fazer referências
que revelam seu pleno conhecimento dos filósofos e cientistas positivistas. A técnica
utilizada pelo narrador para expor ficcionalmente um assunto delicado,
decorrência do abominável preconceito, compreende também o nominação da
personagem Tobias, pois, ao significar meu
bem é Iavé, coloca-se acima das picuinhas humanas.
Dentro
da mesma filosofia, o narrador nomina a personagem Pangô, que em uma primeira
interpretação, significa erva myrtácea que, segundo o positivismo, caracterizaria
a pureza da raça, porquanto não permite transmutações genéticas. Assim, no momento
em que Pangô aconselha a Aretusa não se casar com Jovelino, em decorrência das
diferenças raciais, faz valer o significado de seu nome. Por outro lado, a
significação de droga semelhante à maconha funciona na narrativa como ironia,
uma vez que a personagem, ao contrário, é o perfeito exemplo de honestidade e de
homem trabalhador cônscio de seus deveres. Entanto, em decorrência de ele
pertencer à família lingüística banto, passa, no diálogo de Tancredo e Tobias,
a chamar-se Banto, com a semia de homem, indivíduo, como a determinar-lhe a
raça e a capacidade de se impor, mesmo exercendo a profissão de poteiro.
Ao
obedecer ao pai, Banto, que a impede de casar-se com Jovelino, Aretusa não
exerce a essência do nome, uma vez que seria aquela que é contrária ao amor.
Mas, mesmo amando e sofrendo, exercita o conceito de raça e desiste do namoro.
O
conto se torna singular, ao proceder a interculturalidade mediante os nomes,
uma vez que Aretusa, sendo uma ninfa, pertence à mitologia grega. Do mesmo
modo, Jovelino, sendo o protegido por Júpiter, da mitologia latina, instala
ferina ironia, porquanto, a despeito de afirmar a pureza racial de Banto,
também a nega, ao se estabelecer a interculturalidade. No fundo, o narrador
goza dos preconceitos e nos oferece uma narrativa que também é um gozo: aquele
proporcionado pelo prazer do texto e pelo prazer da descoberta de se sorver um
discurso verdadeiramente estético.
A
leitura dos contos de Realidade e ficção
surpreende a cada narrativa. O conto Finis coronat opus certamente, pela
densidade filosófico-antropológica, à medida que narrador e personagens mergulham
em intrincados problemas políticos enraizados na formação do povo brasileiro.
Ao mesmo tempo, apresenta soluções, mediante a imitação de personagens
históricas brasileiras e estrangeiras exemplares. Para isso, o protagonista é
nomeado com parte dos nomes do pai e da mãe, a fim de encerrar essências
similares às que lhes são inerentes. Assim, Brunater se compõe do brilho
impresso ao nome de Bruno, e da semia puro, honesto, desprendida de Natércia. Tendo
em vista a descrição inicial da personagem – Era um Apolo com toques de Antinoo – sua carreira política já se
define, pois Apolo quer dizer aquele que
conduz e Antinoo, símbolo da fidelidade. Além disso, o sobrenome Corinto
confere à personagem um sentido de raridade, de uma espécie de nobreza incomum:
aquele concernente ao caráter. Riganta, aquele que está no caminho certo,
porque devidamente equipado culturalmente.
Se
conjugarmos a filosofia política que embasa o discurso narrativo com a necessária
fidelidade de Brunater ao desembargador Martins e ao deputado Espíndola, o
narrador, a despeito de empreender crítica explícita aos maus políticos, deixa
a honestidade nas entrelinhas, como sendo um raro tesouro. As razoes do sucesso
da personagem, considerando que o nome confere essência à coisa nominada, encontram-se
na substância mesma do ser. A narrativa obedece a uma estrutura adrede
planejada e, em decorrência, executada com o esmero imprescindível à
instauração do estético. Para confirmar a consciência de estar produzindo um
texto que, além de filosófico, de crítico, constitui uma verdadeira sátira ao
brilho falso da maioria dos políticos, Brunater se casa com Hélvia, tão
brilhante no nome e nas ações quanto ele.
O
segundo conto de Rochedo e ferrolho,
Vida
alegre e morte sorridente, erigiu-se, com certeza, sobre fatos reais
não apenas pela referência a figuras históricas, como Senador Canedo e Leo
Lynce; mas pelo registro de personagens conhecidas do escritor. Entanto, para o
leitor o enredo em si faz parte apenas do imaginário, uma vez que desconhece os
fatos e as pessoas reais que fizeram a história. Instaura-se, assim, o
ficcional. Mas este conto se distingue pelo registro de usos e costumes que
tendem a desaparecer com o advento da tecnologia, transformando o discurso
ficcional em repositório de cultura, de cristalização de formas simples
incrustadas no coração do todo, a ponto de constituir-se uma verdadeira
narrativa etnográfica ficcional. O ato de cardar algodão executado por D. Zuca,
a ação de tecê-lo e pintá-lo praticada pelas filhas, utilizando tintura de
plantas ou mesmo o anil, cristaliza componentes da cultura.
Além
da tecelagem, a narrativa confere especial atenção ao fabrico de comidas
típicas da zona rural, como biscoitos, queijo-de-leite, bom-bocado, broa de
fubá, canjica, cuscuz, em que se ressaltam os dons culinários de D. Zuca. Mas,
as referências às fogueiras, hoje apenas virtuais, nas festas de Santo Antônio,
São João e São Pedro-São Paulo são realmente etnográficas, porquanto apresentam
detalhes que serão motivo de estudo em futuro próximo, se o homem ainda
cultivar o passado:
Época das fogueiras: Santo Antônio, São
João, São Pedro.
Toda casa que tivesse um Antônio,
João ou Pedro erguia, no dia correspondente ao nome do Santo, uma fogueira,
proporcional à projeção, ao gosto e às posses do chefe da família.
Havia-as, por isso, grandes,
médias e pequenas.
As grandes acompanhavam-se de
levantamento de mastros, de pindaíba, esbranquiçados com tabatinga e pintados
circularmente, à guisa de anéis, com pó de pedra tapiocanga e ocra amarela, mergulhados,
um e outra, separadamente, em cola de couro de boi.
A bandeira tremulava açoitada
pelo vento, e rugia no suporte, para orgulho do proprietário e vaidade dos
amigos. (1968, 18).
Nos chamados
detalhes, o narrador sequer se esquece dos fogos, das comidas típicas, das
músicas executadas à viola. Até a ironia aplicada a quem não gostasse destes
encantos de sertão, o marido de D. Zuca, Quinca Joaquim, o narrador cristalizou
no discurso proferido pelo festeiro:
“Se você aborrece esta terra com
todos os seus encantos, engastada entre buritizais que nos inebriam com o
deslizar da aragem entre os seus leques, em noites frias e aprazíveis, como
esta, e não mais aprecia a convivência atraente com um povo com, como o nosso,
então está saciado da vida, e já é um caso perdido. Peça logo a um Padre que, à
cabeceira da cama, lhe diga:”Está chegando a hora, amigo; fale, aí, amém Jesus,
irmão”.” (1968, 19).
Além da cultura
popular transposta para o discurso literário, a visão antropológica utilizada
para descrever a personagem Quinca Joaquim é inteiramente positivista, uma vez
que sobreleva as características intelectuais na visualização do homem em detrimento
do aspecto físico e do temperamento primitivo. No homem civilizado, defende o
equilíbrio entre o intelecto e o físico. Para isso, usa terminologia cientifica,
a fim de definir o biotipo da personagem, como hipoestênico e não simpaticotônico,
isto é, um indivíduo alto, magro e esbelto, com pele impecável, livre de
qualquer ulceração.
As
referências às atividades desempenhadas por Quinca Joaquim, além de confirmarem
a essência reduplicada pelo nome, aquele
que Iavé elevou, o narrador retorna ao caráter etnográfico, sobretudo ao
descrever o oratório fabricado pelo artista. A inscrição toponímica de Trindade
em sua antiga denominação, Barro Preto, confere ao discurso certo
descontentamento, decorrência de sermos um povo sem raízes culturais, em contraposição
à técnica do passado, expressa em
arte. A materialização do apego ao torrão natal se segue com
verdadeiro ufanismo de ser goiano e pelo prazer de viver naquela cidade.
A
elevação de Quinca Joaquim à condição de delegado, além de confirmar-lhe o nome
ainda revela outros predicados de homem respeitado. Mas, ao falar dos acontecimentos
inerentes ao cargo de delegado, na verdade interessa-se por cristalizar
aspectos culturais da região, como a festa do Divino, as Cavalhadas, sem deixar
de lado o nome da carabina da época: papo-amarelo.
O caráter burlesco das ações do delegado improvisado transpõe a personagem para
o nível do picaresco, comum em pessoa não preparada para o cargo e, sobretudo,
demasiado humana nestes interiores brasileiros. A ordem de soltura aos presos
que aguardavam julgamento, a fim de que pudessem se espairecer, se torna
risível em seu desfecho, quando diz aos presos que, na próxima vez que se atrasarem
no retorno à prisão, dormirão na rua.
Há
episódios ocorridos com Quinca Joaquim, tanto como autoridade quanto, sobretudo,
como comerciante, que convertem partes da narrativa em verdadeiras piadas. Ao
rapaz que saíra da loja sem lhe pagar o chapéu, disse simplesmente: “Moço, por este preço, eu não lho posso
vender” (1968, 26). Quinca Joaquim diversificava suas fontes de renda. Além
da loja e da marcenaria, emprestava dinheiro aos fazendeiros. Um desses
fregueses lhe devolveu todo o empréstimo com os devidos juros após um ano; mas
pede-lhe os mesmos valores de volta. Porém, responde ao amigo:
“Leve o documento consigo, e
guarde-o. daqui a oito dias, mande-mo por um de seus filhos, ou traga-mo
pessoalmente, que o dinheiro irá. Desta vez, porém, não, e não. tem ele que
dormir primeiro uma semana em minha casa, para eu não perder a sensação de que
é meu, e meu mesmo. Sim”? (1968, 29-30).
As atitudes de
Quinca Joaquim são sempre inesperadas. Revelam uma personagem que possui
excelente presença de espírito e saída imediata para problemas incomuns. Assim,
atende a dois fregueses que desejam comprar a crédito. Aos dois argumenta
mostrando as dificuldades para a cobrança, em decorrência das estradas lamacentas.
Mas, de repente, resolve vender ao segundo, que compra mais do que pretendia.
Os amigos que assim o viram agir, ficam intrigados:
“Poderia alguém compreender o
porquê de sua tão rápida mudança de atitude? Para o que tem a porta
constantemente limpa, nega; para o que a tem suja e tapizada de lama, vende”.
– Sim; o que tem a porta limpa morando na
roça, é preguiçoso que nada possui; e o que a tem com lama no curral, é
trabalhador e, por isso, dotado de recursos. Merece crédito. Entendeu? (1968,
32).
Mesmo em conto em
que a ficção se sobrepõe à realidade, em que o bem, aparentemente inocente, se
contrapõe ao mal, o narrador se utiliza do ficcional para soltar farpas
irônicas contra os maus, mormente os políticos. Este tom crítico imprime ao conto
aquele caráter peculiar ao discurso artístico: a ambigüidade e, sobretudo, a
ideologia incrustada em uma filosofia que caminha subliminarmente em meio aos
acontecimentos do imaginário. Neste jogo em que as verdades se escondem e se
mostram nas entrelinhas da narrativa, o narrador exercita reflexões sociológico-históricas
a fim de registrar a cidade inteira de seu nascimento mediante referência às
famílias que a compõem. Ademais, para mais interagirem realidade e ficção, faz
questão de colocar, no convívio do protagonista, personagens históricas, como
que a homenageá-las mediante a cristalização do nome também no discurso
fictício, como lemos neste excerto:
Mal sabíamos que alguns dos
componentes, mais tarde, desempenhariam relevante papel na cidade e no Estado,
tais como Manoel Umbelino, na Câmara dos Deputados, Egerineu Teixeira e José
Lobo, na imprensa; e Vasco do Reis Gonçalves, na cátedra de medicina legal e na
imprensa, na tribuna e no teatro, todos quatro de saudosa memória. (1968,
35).
O fecho do conto
inscreve no discurso o tom do imaginário, ao conferir à morte da personagem a
sensação do ultra-real, como se a ponta da vida marcada pelo humor se juntasse
à do além, também mediante o jogo que instaura o risível, inerente à simplicidade
da grandeza do espírito de Quinca Joaquim.
Se
no conto anterior, o narrador cristalizou aspectos relevantes da cultura popular,
inscritos, sob certo sentido, na própria personagem, à medida que ela seria um personnage gigogne, na novela A
estrela de cada um, reserva
espaço especial para a medicina popular e uma terminologia típica do sertão,
ramo vivo de um relato que se quer também etnográfico. A personagem Lua Cheia
justificava a preguiça que lhe peculiar, porquanto afirma haver tomado vários
remédios caseiros:
– Já tomei lombrigueiro, infuso
de losna e chá de hortelã, sem alcançar a cura pela qual tanto anseio.
– Desta vez, não haverá hortelã nem losna, e,
sim, massagem de rabo-de-tatu, cujo resultado é infalível, e melhor que
benzimento. (1968, 39-40).
O elenco de
vocábulos que designam objetos e atividades típicos do viver em sertão é vasto
e transforma realmente a narrativa em acervo etnográfico, sobretudo, se
considerarmos o rareamento da medicina caseira e a possível extinção de muitas
delas em face à expansão de tecnologia. O próprio nome atribuído ao peão
encarregado de exemplar Lua Cheia, Piraguaio, certamente deve ser uma
deturpação do gentílico paraguaio, ocorrido mediante o iotacismo, comum no
falar sertanejo destes brasis. Além disso, o uso da palavra se assemelha ao uso
da palavra “urovaio” pela personagem, quando chamava a atenção dos bois à
descida das montanhas. Por outro lado, a raiz do nome Piraguaio pode constituir
uma ironia, à medida que suas ações, marcadas pela calma e pelo pronto atender
às pessoas, se contrapõem à semântica de fogo, pira.
A
utilização das formas simples, além de cristalizar uma gama imensa de usos e
costumes e, sobretudo, a linguagem, elemento essencial de revelação do ser
sertanejo, ainda compreende aspectos intrínsecos ao ser da personagem, como a
crença no sobrenatural inerente à magia negra, auxiliada pelo uso da pele de
lobo. Para melhor instalar o fantástico, no exato sentido grego de fantasia, ao
narrar as façanhas da caça aos guarás, carregava as tintas, a fim de
impressionar os ouvintes e, mormente, instalar o tom arquetípico do imaginário,
transformando o seu relato em verdadeira literatura oral:
Procurando-o com empenho, e
caçando-o à maneira dos felinos, porque não tinha cão, sempre que lhe era
possível, matava um, de preferência fora da época da rabugem, para que
diminuído não fosse o valor da pele, a que atribuía virtudes mandingueiras de
elevado alcance.
E sobre o encontro com os guarás,
como ele os chamava, carregava nas cores da narrativa, enfatizando a habilidade
com que vencia a astúcia desses curiosos visitantes dos galinheiros da roça,
deixando, porém, transparecer propositadamente que algo de bruxedo havia nas
suas atitudes. (1968, 44-45).
Até
a figura mítica do homo viator,
também uma espécie de personnage gigogne,
o narrador explora neste conto. Não, na concepção metafísica de Gabriel
Marcel; mas na concepção popular, comum nos meios rurais que, normalmente,
confere a ele características especiais, seja na acepção do medo, mormente
incutido às crianças, a fim de que se comportem, ou na impressa ao relato, em
que se mostram aspectos supra-humanos ao protagonista.
As solitárias andanças a que
periódica e perseverantemente se entregava, constituindo um enigma indecifrável
para um meio onde os sortilégios da maior extravagância eram sem dificuldade
acreditados, conferiam-lhe a terrível auréola de feiticeiro. Estava, em
conseqüência, credenciado a permanecer na vida que lhe era do agrado. (1968,
45).
Piraguaio é o
contraponto de Lua Cheia: a ação contraposta à inanição; o trabalho, à preguiça;
a bondade, à maldade; a coragem, ao medo; o fogo, à cinza. Mas, a caracterização
de Lua Cheia, feita consoante os princípios da filosofia positivista,
confere-lhe um singular primitivismo, que não prescinde dos caracteres
zoomórficos, como o instinto de predador peculiar a lobos e tigres, como
podemos ler neste excerto:
O instinto vingativo com
traiçoeiras garras de felídeo, ao impulso da determinação de agir, aparecia
pontiagudo e certeiro, retesado pelo músculo da vontade sem freios.
Paciente à oriental, frio e
calculista, no íntimo, recebia as admoestações de Piraguaio como ignomínia, mas
não as reciprocava; guardava-as com rancor sufocado a princípio, e com ódio a
concentrar-se mais tarde. (1968, 48).
A força da terra
sobre o individuo, consoante lemos em Herbert Spencer
(cf. 1880, 96), amoldava-o ao meio, a fim de alimentar-lhe a gula por alimentos
e para manter-se no dolce far niente. As diferenças entre ele e Piraguaio operam-se
em níveis diferentes, pois enquanto o primeiro era um homo viator que, a despeito de não atingir a consciência
metafísica, se completava e se realizava mesmo enquanto ser social, Lua Cheia
tornou-se homo viator por
necessidade de manter-se no status quo da preguiça, da inteira falta
de vontade de ser, a ponto de negar a própria identidade social. Como o
narrador o afirma, O desleixo,
amasiando-se com a ignorância, em rivalidade invicta com o trabalho,
conferia-lhe a inalienabilidade do direito de ser, não o que devia ser, mas o que
deseja continuar a ser. (1968, 54).
Não sem
motivo, Lua Cheia chegará à fazenda do amigo do patrão guiado por um porquinho,
também perdido e desorientado como ele. Como um animal selvagem, será atacado
pelos cães e, posteriormente, como resultado, seus caracteres são descritos de
forma a carregar todas as marcas do homem primitivo, atendendo à noção de atavismo
proposta por Spencer (1880, 305-306), quando afirma que O atavismo é o nome que se dá ao retorno aos traços ancestrais, provado
por fatos numerosos e variados. Nas galerias de quadros de velhas famílias, e
sobre mesas de bronze monumentais conservadas em igrejas vizinhas, vemos
freqüentemente tipos de fisionomia que, de tempos em tempos, se repetem nos
membros destas famílias. Todo mundo pode perceber que certas doenças
constitucionais, como gota ou a loucura, após haver desaparecido em uma
geração, se mostra na seguinte. Ora, o atavismo intrínseco a Lua Cheia
estabelece um contraponto dissonante com Piraguaio, pois, enquanto o segundo o
odeia e manifesta na ira o seu lado animal, o primeiro, instado por Mumbuca –
pessoa que faz valer a essência do nome, porque doce como a abelha que o nomeia
–, pensa procurá-lo após cumpridas suas obrigações. Garante encontrá-lo esteja
onde estiver.
Se Lua Cheia
se opõe a Piraguaio, Cambará, o novo patrão do preguiçoso Lua Cheia, é o oposto
do antigo, uma vez que é duro e acre. Por isso, não lhe permite o cultivo à
indolência. Fá-lo trabalhar, a fim de ganhar o próprio sustento, além de,
decorrência de sua fisionomia arbórea, incutir medo ao lesma inane. Todavia, Lua
Cheia contraria o determinismo positivista e se transforma inteiramente, em
decorrência do meio e da convivência com Piraguaio e, sobretudo, com Mumbuca, o
homem só bondade. Lua Cheia, frio e calculista; mas dependente sempre do sol,
Piraguaio, obriga-se a aceitá-lo como um mal necessário e, depois, como um
coadjuvante imprescindível.
O modus narrandi dessa novela,
contínuo-descontínuo, como as fases da lua, revela conhecimentos da arte de
narrar, porquanto o narrador joga com os significados dos nomes das personagens
e, sobretudo, com o suspense, imprescindível à apreensão do leitor. O fato de
ele reservar verdadeiras surpresas para o desfecho, como o casamento de
Piraguaio com Joaninha, que só aparece ao final, além de mostrar a bondade inerente
a Mumbuca, deixa transparecer a intenção do narrador de disseminar o bem através
de personagens marcadas pela responsabilidade e, sobretudo, pelo trabalho, pela
conquista de melhores condições econômicas, como corolário da educação.
A
intra-textualidade estabelecida entre o real e o imaginário na obra de Altamiro
revela um narrador consciente do ato de registrar história e estória, de emitir
o pensamento do autor e de reafirmá-lo através das personagens de ficção. Se em
todas as narrativas observamos o diálogo da ficção com a realidade, do pensador
com o ficcionista, na novela Rochedo e Ferrolho, resultante da
nominação das personagens e da profissão a que cada um abraçou, ele se torna mais
denso, transformando o discurso em uma espécie de diálogo platônico. O
narrador, movido pela força dos nomes e pelo fato de serem professores, deles
se utiliza para vergastar o sistema educacional brasileiro e, notadamente, o
político. No político, sobretudo, não economiza ironia à administração pública,
ao desprezo à dignidade do funcionalismo, à corrupção; mas também à péssima
reputação imputada ao serviço público. Para mais evidenciá-los, enfatiza a vida
simples e regrada dos dois amigos que, para irem ao teatro, tem de sacrificar o
orçamento familiar por vários meses.
A
discussão dos mais variados assuntos faz dessa narrativa um verdadeiro tratado
científico-filosófico, ao ponto de podermos nomeá-la como novela-ensaio. O momento
histórico inteiro em que ela foi produzida está retratado no dialogismo operado
entre as duas personagens, uma vez que cada uma defende pontos de vista quase
sempre conflitantes; mas expostos de maneira a deixar também à participação do
leitor. Assim, se em determinado momento discutem a guerra fria, a exploração
de uma nação por outra, quando ocorrem dificuldades financeiras, em outro até
noções de estética e de ecologia atinentes à modernidade são feitas com
propriedade, como vemos neste excerto:
– Quem sabe se não são pródromos
de novo modernismo (porque o primeiro já está meio envelhecido) a criar
ambiente à arte de desmatar, para embelezamento de cidades, parques e jardins?
Muita vez, nós é que estamos atrasados. Assim, por exemplo, nada entendo das
mais modernas pinturas, não obstante a ciência de que para as compreender é
mister saber interpretá-las.
– Momento há em que penso ser o
modernismo uma capitulação. Parece-me incapacidade de um prosseguimento na obra
dos clássicos, cuja perfeição não admite acréscimo ou modificações. O espírito
humano, criador por excelência, saturado do que é bom, resvala-se para o abismo
da imitação dos trabalhos primitivos, buscando nova aurora para a arte, e
forçando o raciocínio com justificativas que não esclarecem, mas, com a técnica
da repetição, tentam e logram alcançar o convencimento. (1968, 13).
Durante
a leitura chamou-nos a atenção o uso de figuras mitológicas para efetuar
comparações com as personagens. Se pensávamos tratar-se apenas de vasto conhecimento
demonstrado pelo ficcionista quando fazíamos a análise das demais narrativas,
agora, ao nos depararmos com essa manifestação a respeito do modernismo,
podemos falar da influência sofrida por ele na juventude e na idade madura,
quando a estética clássica dominou a prática artística, ao ponto de os grandes
escritores da modernidade a haverem conjugado com o moderno, como ocorreu aos
neo-parnasianos ou neo-maneiristas. Além disso, a intenção de utilizar um
estilo clássico, mesmo sendo moderno, o faz comparticipe da postura de Mário de
Andrade (1974, 14) em relação ao passado: Sou
passadista confesso. Ninguém pode se libertar duma só vez das teorias-avós que
bebeu. É com estes olhos que entendemos um parágrafo como este:
Acompanhando a trasumância de seu
espírito incansável, afigurou-se-lhe haver ressuscitado a Praxítelesa fim
de, com o cinzel de maior discípulo de Fídias,imortalizar,
num escolhido monobloco de Carrara,
essa nova Terpsícore que
não precisa de harpa nem diadema para, sobrepujando Phrynéa, ser o modelo
definitivo de Vênus (1968, 133).
A
singularidade da beleza e do comportamento das personagens, mormente femininas
mostrada mediante a utilização de figuras mitológicas, como as dríades, confere
ao discurso, a despeito de em prosa, aquele tom neo-parnasiano típico dos
poetas da chamada geração de 45. Como, cronologicamente, o ficcionista se situa
em todas as fases do modernismo, explica-se, inclusive, a interação entre a
mitologia grega e a cristã na configuração das personagens, uma vez que,
enquanto Nicaula, a mãe, se assemelha à Diana, colocada no século XX, a filha é
descrita como anjo que, pelas características, nada tem a ver com a noção grega
de daimon. Este processo composicional, à semelhança do que fez Camões em Os
Lusíadas, confere à narrativa a singularidade do estilo e
da modernidade.
Do
mesmo modo, porém, que se volta ao passado da cultura, se coloca no presente e,
sobretudo, na sua especialidade, ao usar terminologia médica para descrever o
grau de paixão de Jacinto pela filha de Ferrolho.
Como
a narrativa se constrói ao tempo da existência real, uma vez que realidade e
ficção se interagem, dias depois os amigos novamente se encontram. O narrador
muda totalmente o tom da narrativa, uma vez que imprime ao momento forte sátira
aos acontecimentos típicos da brasilidade, como a existência injustificada de
inúmeros feriados e, sobretudo, dos chamados pontos facultativos. A sátira é
clara, uma vez que o narrador não se esconde sob o artifício da ironia ou do
humor e, sim, detona a práxis brasileira de se emendarem os feriados, como se
isso não fosse prejudicial à economia do país:
No meio da semana, num feriado
escolar e ponto facultativo, dos que se sucedem com preferência e sob o mínimo
e injustificável pretexto, encontrou Ferrolho lendo O Estado de São Paulo, num dos bancos ainda não danificados da
majestosa Avenida Goiás, proximidades da Praça Bandeirantes, entre roseiras
floridas e um agrupamento álacre de moças. (1968, 135-136).
Além
da critica à preguiça nacional, gira sua metralhadora verbal contra a educação
e a cultura do povo, ao mostrar que os bancos ainda não haviam sido
danificados. Esta práxis maldita infesta as cidades e, comparando o real
fictício da época com a realidade de hoje, verificamos que, em vez de essa
desgraça haver minorado, ainda se tornou mais recrudescente, através dos
protegidos pichadores.
A
inteligência do narrador confere à ficção a tonalidade do real e, sobretudo,
como acontece no Brasil, desde Gregório de Matos, a atualidade das críticas às
ideologias extremadas e à malandragem oficializada e protegida pelo poder
público. O exemplo do mendigo que não era mendigo faz com que o texto pareça
escrito aqui e agora, pois retrata uma realidade vivida naquele e, neste
momento, ainda mais acintosa, porque a preguiça recebe todo amparo da demagogia
política. O narrador não se contenta em mostrar o fato condenável, pois
descreve a ferida e apresenta o tratamento e os medicamentos nunca ministrados
pelos políticos:
Mas, com serenidade, e meditando
um pouco, chega-se à conclusão de que se o brasileiro imitasse o que é bom, e
quisesse de fato livrar-se de semelhante nódoa a manchar a nossa civilização,
zelaria melhor dos incapacitados para o trabalho, e obrigaria os malandros a
que ganhassem a vida com o suor do seu rosto. Faria como os nórdicos do
Ocidente que solucionaram a questão da mendicância valorizando o indivíduo pela
alfabetização, reeducando-o profissionalmente, e proibindo a esmola. E,
enquanto nos países subdesenvolvidos, se multiplicam as reivindicações nutridas
pela ignorância, as greves sem justificativa, os roubos e assassinatos, entre
os nórdicos, a vida decorre sob a melodia do trabalho e as bênçãos da
disciplina, como máximo de respeito ao princípio de autoridade. (1968,
141).
O caráter satírico
dessa passagem da narrativa é intrigante, porquanto extremamente atual, apesar
de haverem passados mais de quarenta anos. O contraponto estabelecido pelo
narrador mostra, como que com o dedo, exatamente o que ainda não se faz, ou
melhor, o que ainda se faz ao contrário e de forma acentuada. A proposição de
que se eduque o malandro, hoje, parece piada, uma vez que a malandragem s
estende por todos os níveis sociais e econômicos, desde o pedinte aos chamados
representantes do povo. É realmente estarrecedor observar o quão atual é o
texto e, sobretudo, o quão se foge das propostas educacionais desse visionário realismo
ficcional. Embora pareça que estamos nos servindo demais dos excertos da obra,
fazemo-lo propositalmente, pois não deixaremos de proporcionar ao futuro
estudioso da ficção altamiroana sua capacidade de enxergar o futuro com olhos
de presente e o presente, com olhos de futuro, como vemos em mais este
parágrafo:
Não será conveniente e mesmo
necessário impedir que o malandro, pobre por camuflagem com a preguiça e a
aliança com a má-fé, se aproveite da circunstância comovente da pobreza, e
venha, como auxílio de leis demagógicas e o apoio de uma consciência mal
formada, explorar os fortes (honestos, é claro) porque trabalharam e souberam
economizar? (1968, 142).
Uma
conclusão não conclusiva da obra desse extraordinário goiano nos mostra que ele
abordou de forma real e imaginária todos os problemas da vida nacional que,
infelizmente, não se atém somente ao tempo em que foram móbeis de preocupação
de quem viveu um país caótico e carnavalesco. A educação, sem dúvida, um de
seus principais temas, hoje muito pior que há cinquenta anos, continua sendo
plataforma de políticos desonestos. A cultura, de que se lhe desprende, nunca
esteve tão aviltada, tratando apenas de interesses pessoais. A política, um
horror, porquanto os políticos, nunca na história desse país, estiveram tão
corruptos. As ciências evoluem apenas na estranja do Mario de Andrade. Aqui,
regride, mormente na área da sociolingüística. O comércio exterior, não se sabe
o que ocorre com ele, pois todas as nossas riquezas são exportadas, e o país
permanece estaganado. Os transportes estão cada vez piores, pois um país sem
estradas de ferro será sempre um país atrasado. O urbanismo, uma desgraça, pois
Goiânia não se prepara para o futuro. O paisagismo agride, mormente, agora com
o maldito código florestal. A administração pública, com os graves defeitos de
sempre. A economia, sempre dependente e mentirosa. A agropecuária, talvez um
dos poucos setores que evolui, porque não depende tanto de ações
governamentais. A ecologia, coitada! Estão destruindo o planeta. Filosofia, só
a da corrupção. Sociologia, só para efeitos demagógicos. Sentimento pátrio,
nenhum!
Altamiro,
assusta-nos como o Brasil que você tanto amou, esquece-se tão rapidamente de
filhos tão ilustres como você! Sinto muito em dizer-lhe isso! É lamentável,
porque você é um grande cidadão, um grande cientista, um grande administrador
e, também, um grande ficcionista.
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littérature anglaise. Paris : Hachette, 1866. 5 v.
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grego Φειδίας; Atenas, c. 490 — Olímpia ?, c. 430 a.C.) foi um célebre escultor
da Grécia Antiga