Há pesquisas feitas no Brasil que se parecem com um velho quadro da televisão, em que se confrontava a arte de cantar de um tenor com a arte de miar de um felino sertanejo. Inquirir de um cidadão que reside em uma cidade, como São Paulo, Goiânia ou Santo Antônio de Goiás, sua satisfação relativa à qualidade de vida, se ele não conhece outras metrópoles brasileiras e, muito menos, outros países, é o mesmo que comparar nada com coisa nenhuma!
– Sabe que você tem razão, Ângelo! Se eu cotejar o aspecto físico das ruas de Goiânia com as de Santo Antônio de Goiás, não encontrarei diferença alguma: buracos, sujeira, asfalto de péssima qualidade com protuberâncias advindas de retapeaçoes superpostas, barro, poeira, mato... Não sei se o alcaide goianiense utiliza devidamente as verbas recebidas do Fundo de Participação dos Municípios. O santoantoniense, tenho certeza que não, porque sete milhões anuais é muito dinheiro para não se ver nada de novo, a não ser lombadas, que devem custar milhares de reais! O mais é superlativo de descaso. Mas, Santo Antonio, apesar de tudo, dispõe de melhor qualidade de vida que Goiânia, uma vez que, por enquanto, não possui trânsito enervante, certamente arquitetado por um engenheiro semi-analfabeto, como se vê pelas rotatórias e sinaleiros, onde deveria haver viadutos ou outras soluções mais inteligentes para uma capital! Além disso, como se trata de uma cidade pequena, rodeada de verde, pode-se mais usufruir da natureza, com tudo que Goiânia destruiu para dar lugar à presença de seu maior predador: o homem!
– Geraldino, há quem diga que o povo é responsável pela sujeira das ruas de quase todos os aglomerados urbanos nestes brasis! Sem dúvida, é! Mas, o poder constituído é mais culpado ainda, à medida que não oferece condições de educação e de cultura para a população! O que se pode esperar de quem acredita que o único estilo de música existente no planeta é o “merdanejo”? Ademais, há determinados fatores étnicos já apontados pelos positivistas que determinam a índole dos homens. Veja, por exemplo, a capital do Paraná! De nada adiantaria a inteligência de seus prefeitos, desde Ivo Arzua até Richa, passando, de modo especial, por Jaime Lerner, se a população depredasse, pichasse, jogasse lixo nas ruas! É imprescindível que se conjugue administração pública com cultura. Queira-se ou não, ela tem de estar arraigada no ser do homem!
– Goiânia, com as administrações Nion, quando algumas avenidas e praças eram floridas, iniciava, por uma espécie de osmose entre homem e natureza, este processo de conscientização de que o belo necessita de cuidados; mas, infelizmente, não se vêem mais os ajardinamentos daqueles tempos. Há políticos que se acham diminuídos se continuarem ou aperfeiçoarem as boas obras de seus antecessores!
– Eh! Se os brasileiros sequer conhecem o Brasil, como poderão opinar, se não dispõem de pontos de referência a serem comparados? Depois, a maioria daqueles que se mete a administrar as cidades se coloca no mesmo nível da população, ou prefere acrescentar aquele B, de bolso, que uma Revista, mediante inteligente metátese semântica, atribuiu a um partido que já o possui; mas que se adéqua a todos eles, indistintamente. Há alguns, também, que, à semelhança do mencionado, já o incorporaram à sigla! Os candidatos a cargos públicos deveriam, pelo menos, ser obrigados a conhecer os procedimentos administrativos adotados em determinadas cidades brasileiras. Não precisa ser, necessariamente, Curitiba; pode ser uma cidade de pequeno porte, como São Bento do Sul ou um pouco maior, como Joinville, já que imitar o que se faz nos lugarejos franceses ou canadenses seria sonho!
– Mas, o velho ditado criado por Santo Agostinho – “Volo ut sis” – traduzido como “Querer é poder”; mas, na realidade, “Quero que sejas”, se verdadeiramente praticado pelos governantes e pela população, ao elegê-los, me faz otimista: um dia chegaremos lá!
– Geraldino, não é sem razão que você passa dos cem anos! Por acaso, neste tempo todo vivido, as cidades melhoraram ou pioraram? Veja bem que o próprio Niemayer se arrependeu de haver criado nossa capital, quando disse: “Projetar Brasília para os políticos que vocês puseram lá foi como criar um lindo vaso de flores pra vocês usarem como pinico!” Se o povo não sabe eleger, também não sabe cobrar: onde são empregados os sete milhões e mais outros impostos na cidade de Santo Antônio de Goiás?! Quem não sabe eleger, muito menos, sabe opinar, sobretudo se considerarmos que o povo não pensa! Se pensa, fá-lo, como o diz Shakespere, com a cabeça do dedão, porque sofre de frieira entre as orelhas! Até mesmo Brasília, a capital da república, está com várias ruas esburadadas! Também, primeiro, um governador ladrão; depois um ladrão, governador!
– Você é muito cruel, Ângelo! Fala de mim, mas também está próximo dos cem!
Entretanto, acho que você tem razão! Se perguntarmos – uso o plural, porque todas as pessoas esclarecidas o pode confirmar – a determinados cidadãos se eles sabem o porquê de se trocarem ministros todos os dias, respondem: “Sei, não sinhô!”
– Pois é! Isso ocorre, por quê? Porque não vêem jornais, sequer na televisão! Acabada a novela, desligam o aparelho, ou tagarelam, já que nada entendem de direitos e de deveres! Ler jornal, então, nem falemos! Se lessem, também, de que adiantaria, se são analfabetos funcionais! Se moram no morro, e uma tempestade destrói-lhes os barracos, à pergunta do repórter, respondem que foi Deus que quis! Nunca são os governantes, em quem votaram e que empregam mal as verbas públicas, os culpados! Que julgamento se pode esperar dessas pessoas, se elas sequer sabem o que é qualidade de vida?! É desesperador! Acho que Deus já está cansado de minhas lamentações; mas só me resta rezar: Miserere nobis, Domine! E ainda: Veni Creator Spiritus, mentes brasiliensium visita!
Crônica publicada no Diário da Manhã do dia 8-11-2011, p.6.