terça-feira, 15 de novembro de 2011

VELHAS NOVIDADES

Os meios de comunicação do efêmero destes brasis estão sempre à cata de novidades para encantar os muitos navegantes e os parcos leitores com manchetes sensacionalistas. Dia desses, por exemplo, estampava que determinada felina, péssima por sinal, apresentaria show na capital, após ser garçonete nos Estados Unidos. Acontece que ser garçonete em terras de tio Sam não é demérito nenhum, pois em restaurantes e lanchonetes de excelente qualidade, em Nova Iorque, são garçons e garçonetes, os artistas.
            – Como se situariam, então, as informações desses comunicadores? Adviriam do desconhecimento da realidade de outros países, ou seria uma forma sórdida de chamar a atenção dos espectadores, considerando que eles também ignoram usos e costumes de outras partes do planeta?
            – Para lhe dizer a verdade, considerando esses tempos de ENEM e de ENAD, para se ocultar a trágica realidade do ensino brasileiro, acredito que seja ignorância mesmo! Certamente, quem redige essas notícias a que se é obrigado a ver vários dias na tela do monitor, como se todos os brasileiros, indistintamente, fossem imbecis, são néscios de costumes e, sobretudo, da evolução por que passam outras nações. Além disso, sem dúvida, há também a chamada má-fé, pois apresentam procedimentos naturais como se fossem anormais, apenas para despertar os “leitores” para o pornográfico!
            – Eu iria ainda mais longe, Ângelo! Um e outro resultam da chamada incultura, uma vez que, decorrente dela, o informante não vê no corpo a máxima expressão do belo, como já expusera Platão, no “Hípias maior”; mas apenas a malícia do olhar e do que ele suscita! A beleza do corpo é admirada pelos artistas que sabem o belo estético desde a antiguidade. As estátuas das Vênus de Milo e da Calipígia são uma prova desse culto ao corpo, que permanece na arte, até hoje; mas que teve seu auge no renascimento.
            – O problema, Geraldino, é que os cultores do efêmero nunca leram Platão e, muito menos, sabem o que seja Vênus Calipígia!
            – Você tem razão! Se soubessem, não perderiam tempo com o óbvio! Se na antiguidade greco-romana já criaram uma deusa de belas nádegas que se encontra no Museu de Nápolis, por que, em pleno século XXI, demonstrarem-se falsos pudores ou, pior, revelarem o belo como uma novidade inteiramente pornográfica e, não, erótica?
            – Eles não sabem as diferenças entre o erótico e o pornográfico! Se o objeto a se admirar se prender ao estético, mesmo que ele se atenha a um corpo real, tem-se o erótico. Se ele se prender apenas à exploração do corpo pelo corpo, com intenções inteiramente claras de mostrar o nu, disfarçadas sob o véu da beleza, tem-se o pornográfico.
            – Conceito e práticas antigas que ainda se prestam à admiração e ao espanto de muita gente pequena quer pelos conhecimentos, quer, sobretudo, pela visão estreita e deturpada do humano! Não o fosse, e a Igreja Católica, tão severa em terras de Itália, mormente em Roma, a ponto de diferir inteiramente da anárquica igreja existente no Brasil, não teria uma dessas estátuas no Museu do Vaticano! Isso demonstra que acima do preconceito de qualquer ordem, coloca-se o belo estético, a arte com os seus mistérios e enigmas, capazes de elevar o humano ao sublime! E a Igreja de Roma sabe disso, pois, em suas missas, ainda se ouvem musicas e, não, miados ou ruídos que devem ferir os ouvidos do Senhor Deus!
            – Assim pensando, amigo, passa da hora de mostrarem-se seios e nádegas como grandes novidades e, mormente, como formas míopes de enxergarem o corpo, pois isso comprova estar o noticiarista imbuído de pensamentos capiaus e botocudos, dignos de rir-se à socapa.
            – O belo causa “stupore”, porque, como o diz, Gabriel Peignot, é obra dos deuses! Portanto, não pode e não deve ser vulgarizado por pessoas pequenas e medíocres! Quando se mostra o belo do corpo, todas as novidades são velhas.
            – Ainda me resta uma dúvida! Você falou sobre navegantes e, principalmente, “leitores”, com aspas, por quê? Navegante, para mim, era o nome de um boi que fazia par com Navio, em uma excelente junta de bois carreiros que Antônio Bello possuía! Mas, e “leitores”?
            – Ora, Geraldino, vê-se que você apesar de adaptado à modernidade, ainda não se ligou totalmente à terminologia cibernética. Navegante, aqui, é quem viaja pela imensidão rica e pobre da internet. “Leitor”, entre aspas, porque considero o ato de ler uma atividade muito séria, em que o homem descobre o mundo e, sobretudo, se enriquece como ser naquele sentido de conquista do humano! Como, hoje, se lê pouco ou quase nada, a verdadeira descoberta do mundo praticamente não existe, e, em conseqüência, o homem não conquista o humano. Permanece no mundo apenas com o sentido do estar, porque ser implica consciência de homem sendo. No momento em que se fala apenas em cidadania, inteiramente desligada do ser, pratica-se apenas demagogia barata, semelhante à visão do corpo apenas como objeto de desejo!
            – Vê-se, apesar da minha visão antiga da realidade, que não adianta a pessoa viajar dentro do computador. É preciso viajar por dentro das ciências, com conhecimento dos livros e do vivido. Só assim se evitará que os comunicólogos nos apresentem velhos acontecimentos, como inteira novidade!
– Mas, essa é a cultura brasileira! Para se ter uma idéia, o meu provedor de internet, UOL, reformulou o seu site e colocou o item “Educação” lá embaixo. Eu, que uso constantemente o dicionário, tenho de passar pela página toda para encontrá-lo nas profundezas do Hades cultural! Coisas de Brasil do ENEM, do ENAD e até do NEM, nunca! Adjuva nos, Domine!

Crônica publicada no Diário da Manhã do dia 15-11-2011, p. 5.

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