segunda-feira, 21 de março de 2011

É preciso fingir


José Fernandes

Houve uma fase da vida que Hegião queria consertar o mundo. Tudo que lhe parecia errado era água para armar uma tempestade e energia para detonar raios e trovões. Hoje, o mundo pode cair-lhe sobre a cabeça, que ele não se abala. Dia desses mesmo, pareceu-me sentir que o estavam ludibriando, mas agiu como se não fosse com ele. Como estranhasse sua atitude, respondeu-me:
— Aprendi, com Fernando Pessoa, que não é somente o poeta que deve ser um fingidor; a maioria das pessoas, hoje, se quiser viver de forma saudável e em harmonia, tem de fingir. Fingir tão completamente que chegue e fingir que a dor que lhe é impingida, pareça uma doença originária das próprias imperfeições corporais, ou fingir tão completamente que chegue a sentir que é amor a dor e a náusea que deveras sente.
— Não estou entendendo bem o que você quer dizer! Nunca o ouvi creditar nenhum bem aos humanos!
— É simples! Você só conhece uma pessoa realmente, quando ela, de alguma maneira, pode controlar parte de algum fio da meada que enreda a sua vida. Foi a que aconteceu comigo! Tinha um amigo que, de repente, foi alçado a um cargo de chefia, por minha indicação, sem que ele o soubesse. Assim que assumiu, o primeiro colega e amigo - considerava-o amigo - a ter a ponto do novelo da existência extirpado fui eu. Pelo menos, foi a que ele pensava.
— O que você fez!
— Analisei os fatos e percebi que ele não dispunha da grandeza de caráter que sempre lhe atribuíam, inclusive eu. Medi, pesei e sopesei a decisão que deveria tomar e conclui que a melhor que teria de fazer era tornar-me um fingidor. Fingir tão sinceramente, para que ele pensasse que eu continuava a vê-lo com os mesmos olhos antigos, ou acreditar que aquela operação de catarata que fizera de nada me adiantara, pois permaneço na escuridão, a ponto de não enxergar as suas sandices.
— Parece-me que assim ele acreditara que você é um parvo e ira, sempre que puder, apoquenta-lo, sem atender as suas solicitações. Além disso, enquanto ele se sentirá feliz, por menosprezar-lhe a capacidade de criar e transmitir o novo aos outros, você estará sofrendo por não lhe revelar o que realmente pensa que ele é!
— Pode ser que hoje ele se sinta realizado pelas extravagâncias cometidas; mas, como todos os mistérios, algum dia, serão desvendados, até aqueles de que fala Pascal, espero sua integral decepção por se saber ludibriado pelo meu fingimento. Aí, aquele gostinho mefistofélico que tivera, transformar-se-á em dor. E a dor que se segue ao prazer, dói mais que aquela sentida enquanto fingia acreditar em sua amizade.
— Você tem vocação para masoquista, Hegião!
Se fosse comigo, lhe diria a verdade. Mostraria a ele a falsa amizade que ele lhe devotara até o momento. Ainda mais que desprezara a sua especialidade, atribuindo-lhe uma função que nada tem a ver com as atividades com que você fez seu nome ao longo da carreira!
— Isso são águas passadas, Filopólemo!
Antigamente, eu o chamaria a realidade! Faria uma tempestade diluviana! Hoje, acredito que o melhor é fingir, porque quem ri melhor, ri por último!
— Hegião, acho que você pirou de vez! Sou adepto daquela máxima, chamada "lei de talião": Oculum pro oculo, et dentem pro dente! Pisou no meu pé, estou retribuindo a gentileza a altura!
— Você sabe que também já segui essa máxima letra a letra; mas o tempo passa, e nós mudamos. Você ainda é muito jovem. Só ira perceber isso daqui a algum tempo. Não há ferida que o tempo não cure. E pena que talvez não viva para vê-lo inteiramente outro!
— Você parece que não me conhece! Meu nome significa "aquele que gosta de guerra". Jamais irei adotar a postura do fingimento, da paz pela paz. A paz, para mim, só pode existir, se advier do sofrimento causado pela guerra! Se queres a paz, prepara-te para a guerra, Si vis pacem, para bellum!, diziam os latinos. Se bem que sou mais adepto dos gregos, para quem "a guerra torna a paz mais sólida!
— Acho que estamos usando latim demais! Latim é língua morta, embora imprescindível ao aprendizado do bom português! Oxalá, todos a soubessem! Mudando um pouco - detesto guerra -, há uma máxima grega - Os olhos são testemunhas mais fiéis do que os ouvidos! -, repito: gostaria de viver para testemunhar as transformações por que passara o seu ímpeto de guerra! Também já fui assim! Panarkós, meu grande amigo, que você conhece, sempre me reprimia. Dizia que eu estava contrariando a minha própria essência, pois meu nome, Hegião, significa "o que serve de guia, o que conduz". Eu pouco ligava para os seus conselhos, imaginando-me senhor de malas e bagagens. Não levava desaforo para casa. Hoje, sou o que você esta vendo!
— Comigo, isso nunca vai acontecer! Fingir que tudo esta bem, quando não está, não faz parte de minha índole.
— Veremos! Nunca se deve dizer que dessa água não beberei! Já cai nessa besteira muitas vezes! Nada melhor do que você ver aquele sorriso diatríbico nos lábios de quem o está pensando enganado, e você é que o está logrando! Sei que é uma atitude um tanto diabólica; mas nada como pagar com a mesma moeda, e a pessoa se julgar no pedestal da glória! É uma forma de bem viver, ou melhor, de conviver em uma sociedade hipócrita!
— Acho melhor guerra declarada!
— Você e o Bush podem dar as mãos. Acredito que o melhor é a guerra fria, em que você nem armas tem e finge tê-las.
— Mas, no seu caso, você as tem; só não quer usá-las! Tanto é verdade que atua em todos os flancos, a fim de que pensem que você conhece a vanguarda e a retaguarda apenas de ouvir dizer e, no entanto, guerreia as escondidas! Ou melhor, finge estar de mãos abanando.
— Assim é melhor! Finjo estar em paz, mesmo estando de mísseis apontados para o inimigo. Quando ele souber disso, certamente ficara desconcertado. Portanto, sempre fazer como o poeta: fingir tão completamente, que chegue a sentir que é amor, a dor que deveras sente. Isso mata qualquer guerreiro!
— Laques, você que apenas ouviu até agora, está de acordo?
— Esta tem sido a minha sorte: ouvir sem falar e falar sem dizer!

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