IDENTIDADE
ÔNTICA E ONTOLÓGICA DO SER HOMEM NA LINGUAGEM
DE
GRANDE SERTÃO: VEREDAS
José
Fernandes
INTRODUÇÃO
O estado de lançado do homem no mundo compreende
a existência da identidade ôntica, social, e da identidade ontológica. A
primeira ocorre, quase sempre, de forma inconsciente, pois se realiza, à medida
que o homem, obrigatoriamente, tem de se relacionar com o outro e com o sistema,
para sobreviver. A segunda, entretanto, exige que o ser tenha plena consciência
de seu estado de lançado e da conseqüente necessidade de conquistar sua essência,
a substância do humano. A identidade ontológica, mormente dentro do texto
artístico, materializa-se em linguagem, que pode assumir diversas faces e
funções, à proporção que a personagem de ficção se pensa e dispõe da
consciência do ser e do estar no mundo. No caso de Grande sertão: veredas, o protagonista, ao pôr-se em viagem física
e metafísica, sob a perspectiva do bem, em que tem de acreditar, e do mal, a
que tem de vencer, para ascender ao humano, converte-se em linguagem, porquanto
é através dela que ele revela sua existência em narrativa. Mas, ao mesmo tempo
que ele se erige e empreende a viagem metafísica, também elabora uma linguagem
e uma língua individual e original, e que é regional e universal, porque imagem
de seu ser e de seu estar no mundo e no sertão, que é o de dentro dele. É exatamente essa perspectiva metafísica da
linguagem que pretendemos perscrutar nesse estudo, uma vez que a linguagem da
narrativa de Grande sertão: veredas transubstancia-se,
também, em linguagem de nação e, portanto, de falantes da Língua Portuguesa,
porque reflexo de um falar típico do sertão, que ainda conserva resquícios verbais
e fonológicos do português falado à época do Brasil colônia, recriado em bases
estéticas e ontológicas.
1 – IDENTIDADE ÔNTICA E ONTOLÓGICA
A identidade, entendida sob uma ótica filosófica, compreende o ser e o
estar do homem no mundo. Quando ela se prende ao estar, temos a chamada
identidade ôntica, relacionada ao ente, ens-entis,
referente ao homem que não ascende à essência, vez que não empreende aquela
busca e, consequentemente, não luta para conquistar a substância do humano. Essa
identidade diz respeito à vida social do indivíduo, em sua relação direta com o
outro, entendido como ser social, que pode lhe complementar, à medida que o
conjuga ao todo, como ocorre com Riobaldo, ainda jovem, ao conhecer o menino.
Diadorim chamou-lhe tanto a atenção pelo saber e pelo comportamento, que Riobaldo
queria-o sempre junto de si, pois constituiu verdadeira lição de sociabilidade,
como constatamos nesse excerto do romance:
Mas eu olhava esse menino, com um prazer de
companhia, como nunca por ninguém eu
não tinha sentido. Achava que ele era muito diferente, gostei daquelas finas feições, a voz mesma,
muito leve, muito aprazível. Porque ele falava
sem mudança, nem intenção, sem sobejo de esforço, fazia de conversar uma conversazinha adulta e antiga. (1970,
81)
Embora Riobaldo não fale de outras
amizades de infância, a descoberta desse ser revela-lhe a verdadeira identidade
ôntica, identidade da persona, sobretudo por se sentir completo como ser
social. Não sem motivo, esse mesmo menino vai iniciá-lo em outra faceta da
identidade, a relativa ao ser, esse,
identidade ontológica, que compreende a busca da substância do humano de forma
consciente, a fim de o homem ultrapassar os próprios limites, mormente aqueles
relacionados à condição humana. Identidade entendida como processo, porquanto
envolve a existência em toda a sua extensão metafísica. No caso de Grande sertão: veredas, Riobaldo, como soe
acontecer no comum dos homens que ascendem à transcendência do existir, passa
pelos dois momentos, porquanto a conquista da identidade ôntica ocorre, quase
toda, em conjunto com a identidade ontológica. Assim, ainda em estado de ente,
marcado pelo medo, pela desconfiança e pela ingenuidade, empreende a travessia
do Rio São Francisco, juntamente com o menino. Essa travessia marca o início
das transformações que o processo imposto pela passagem do estado de ente ao
estado de ser lhe impõe, porquanto, ao retornar, Riobaldo não será mais o
mesmo. Dispõe, agora, de uma qualidade indispensável ao enfrentamento dos
percalços indispensáveis à conquista da essência: a coragem, a ousadia.
O resultado da travessia implicou forte
modificação na essência de Riobaldo, a ponto de ele, que era chamado
simplesmente de Baldo, uma vez que houvera a síncope da sílaba Rio, passa a
chamar-se Riobaldo. Ora, conforme já postulara Platão, no Crátilo, o nome confere essência ao ser nomeado. Exatamente por
isso, aquele que era Baldo, desprovido,
carente, ou a partir do alemão, bald, que significa em breve, mudou rapidamente para
Riobaldo, Ribald, ainda do alemão, o irreverente,
ou o rio audacioso. Não o fosse, e
fortes relações não se estabeleceriam entre Riobaldo, protagonista de Grande sertão: veredas, e Ribaldo,
personagem da novela El caballeroZifar,
do início do século XIV, em que, certamente, Guimarães Rosa se inspirou para
criar a personagem. Mas, a prova maior de que ele realmente assumiu outra
faceta metafisica de sua identidade é constatada nas reflexões metafísicas e
teosóficas que marcarão sua existência ao longo da narrativa, uma vez que se
converte, também, em rio irreverente,
cristalizado em um relato que segue o percurso do rio, em seu constante
distanciar-se e tangenciar-se, e em seu perpétuo ir-e-vir:
A lembrança da vida da
gente se guarda em trechos diversos, cada um com
seu signo e sentimento, uns com os outros acho que nem não misturam. De cada vivimento que eu real tive, de
alegria forte ou pesar, cada vez daquela hoje vejo
que eu era como se fosse diferente pessoa. Sucedido desgovernado. Tem horas antigas que ficaram muito mais
perto da gente do que outras, de recente data.
Não sem motivo, o processo de formação
da identidade de Riobaldo obedece a verdadeiros rituais que implicam passagens
para outro estágio do ser em relação direta com sua essência. Assim, após a
travessia do rio, aprende as lições de que é filho de um paidrinho e foge de casa, começando de fato o seu êxodo físico e,
sobretudo, o êxodo metafísico. Mas, ao aprendizado do rio acresceu-se-lhe,
também, a lição de mestre Lucas que lhe propicia tornar-se professor, marca de
sua ascensão ôntica e a consequente preparação para o ingresso na jagunçagem,
vez que já se formara no manuseio das armas, sob orientação de Selorico Mendes.
Além disso, o fato de ser professor, mesmo sem relatar o que realmente
aprendera, possibilita-lhe ingressar em conhecimentos de ordem metafísica e
teosófica, necessários à conquista da identidade ontológica.
A conquista integral da identidade, no
entanto, impõe-lhe percorrer um longo caminho pelo sertão, a fim de ser tão ele
mesmo. Assim, passa por verdadeiros ritos de passagem que implicarão acúmulo de
experiências e transformações metafísicas manifestas em faces diversas de sua
essência. Assim, ao revelar suas qualidades de atirador, conforme ele mesmo
relata, Hermógenes lhe confere o codinome de Tatarana, lagarta de fogo:
Por jeito? Com o que se deu, que eu não
contava. O Hermógenes me chamou.
Aí ─ as cintas e cartucheiras, mochilão, rede passada e um cobertor por
tudo cobrir ─ ele estava parecendo até um homem gordo. ─ "Riobaldo, Ta- tarana, tu vem. Lugar nosso vai ser o
mais perigoso; Careço de três homens bons,
no próximo de meu cochicho." Para que vou mentir ao senhor? Com ele me apartar assim, me conferindo valia,
um certo aprazimento me deu. Natureza da
gente bebe de águas pretas, agarra gosma. Quem sabe? Eu gostei. Mesmo com a aversão, que digo, que foi,
que forte era, como um escrúpulo. (155)
Sintomaticamente, Tatarana, do tupi, tatá,
fogo; rana, semelhante, parecido, traduz a essência mesma de Riobaldo, à
medida que, ao ligar-se à lagarta que queima, revela o seu lado ambíguo,
correlacionado tanto ao bem quanto ao mal, além da capacidade de minar os
adversários. Já a semântica de fogo, além de revelar sua instabilidade,
materializa as certezas que lhe permitem partir de um ponto fixo e imóvel ─
"Deus existe mesmo quando não há." ─ para minorar as dúvidas que o
atormentam durante todo o existir. Por outro lado, considerando o veneno que o
animal inocula, através de suas cerdas, ao ser tocado, Tatarana se conecta também ao sentido
duplo de bem e mal, que afligem o
protagonista do romance, além, é claro, de constituir uma de suas qualidades,
sobretudo ao verificarmos que esse epíteto lhe foi outorgado em decorrência de
suas habilidades no manuseio das armas. Não fosse isso suficiente, o veneno da
tatarana ainda lhe serve de defesa, numa tradução perfeita do duplo Riobaldo,
aquele que se defende, como na prevenção revelada contra Hermógenes e Ricardão,
e que ataca, quando a ocasião o requer, como ocorrera quando liquidara o
próprio Ricardão, em defesa de Diadorim.
Ao atribuir-lhe o epíteto de Tatarana,
não sabia Hermógenes que estava confirmando a essência de bom atirador, pois,
conforme Wupes já afirmara, Riobaldo atirava com o espírito:
Mas estava lá o
Vupes, Alemão Vupes, que eu disse - seo Emílio Wusp, que o senhor diz. Das vezes que viera a passar pelo Curralinho, ele
ia era meu conhecido. Tresdobrado
homem. Sendo que entendia tudo de manejar com ar mas, mas viajava sem cano nenhum; dizia: -"Níquites!
Desarmado eu completo, eu assim, eles
todos mesmo vão muito mais me respeitar, oh, no sertão". Ele me viu afinar mira, uma vez, e me louvou, por
eu, de nascença, saber tão bem, na horinha,
segurar de não respirar. Mesmo dizia: -"Senhor atira bem, porque ati ra com o espírito. Sempre o espírito é
que acerta..." (1998, 86)
Nas circunstâncias do
discurso roseano, o espírito, consoante a perspectiva metafísica que perpassa a
narrativa, se confunde com a essência e revela o lado verdadeiramente humano do
homem. Não sem razão essa afirmação é pronunciada por uma personagem
experimentada em armas, capaz de ver além da ação de atirar e além da prática
do tiro, uma vez que Sempre o espírito é
que acerta..., como se o ser físico fosse guiado pelo metafísico, o ôntico,
pelo ontológico. Não o fosse, e o atirador Riobaldo não seguraria o ar, como se
aprisionasse o espírito no momento do atirar, pois é exatamente o ar, o sopro,
que lhe confere a substância, a essência do fogo que dispara não somente da
arma, mas, sobretudo, dele mesmo.
É consoante essa substância inerente ao
narrador-personagem que a verdadeira transformação de Riobaldo se opera a
partir do suposto pacto, quando o ritual a que se submeteu, permitiu-lhe incorporar
o nome de Urutu Branco, com todo caráter viperino que a serpente assim denominada
encerra. Se Riobaldo já carregava em si o espírito do mal, impresso na
capacidade incomum de atirar e de expelir chamas, como o faz a taturana, agora,
o fogo, a necessidade de queimar a quem lhe contrariasse, advém de sua
interação com as artes do Sujo que, mesmo não tendo aparecido nas veredas
mortas, pareceu-lhe incorporar e, portanto, a fazer parte integrante de sua
essência. Não o fosse, e não teria se transformado em um ser sanguinário, como
o requer o comportamento e o espírito de um verdadeiro jagunço.
Mas, se observarmos bem, a incorporação
do mal por Riobaldo, a despeito de constituir um processo, não tem como
finalidade absoluta tornar-se mau, mas provar que ele não se encontra em uma
entidade fora do homem, mas é inerente ao homem. Exatamente por isso, a
personagem se submete a vários rituais, a várias viagens que o transformam não
somente em sentido ôntico, físico; mas, sobretudo, em sentido ontológico, à
medida que as viagens repercutem, antes de tudo, no conhecimento de si mesmo,
em seu espírito. É justamente o espírito, o sopro, que lhe imprime, sem dúvida,
o nome mais importante, Cerzidor, que, na conjuntura do romance, não apenas
intertextualiza inúmeras narrativas, como El
caballero Zifar e Le roman de
silence, remendando histórias, mas cose a narrativa, emendando fatos em
linguagem. A despeito de fazê-lo somente no crepúsculo da existência, esse
apelido é que lhe confere a verdadeira substância de homem, à medida que é a
linguagem que lhe permite revelar-se enquanto ser e, notadamente, concluir-se
humano.
A percepção do narrar, na perspectiva do
Cerzidor, daquele que permeia, intercala, mistura e conforma acontecimentos,
tal como o vemos no discurso de Riobaldo, imprime à linguagem uma dimensão
ontológica que eleva o nome e o substantivo à esfera do metafísico, a fim de
revelar o espírito, a substância do ser que fala e que, em decorrência, utiliza
a linguagem autêntica do ser, entendido como aquele que é, que possui a
consciência de que está se revelando enquanto ser.
2
– IDENTIDADE ONTOLÓGICA NA LINGUAGEM
O processo de identidade ontológica de Riobaldo passa, sem dúvida, pela
linguagem, sobretudo se a entendermos, com Heidegger, como a manifestação do
ser. Em seu caso, certamente em decorrência de sua experiência do mistério que
envolve a existência, marcada intrinsecamente pelo mal, além do nome em si, a
sua transformação em linguagem converte essa personagem em um ser singular.
Assim, a peregrinação a que o protagonista se submete, a fim de descobrir-se
humano, obedece a um processo profundo, impossível de ser desvelado sem a
participação da linguagem e, sobretudo, sem a submissão a um ritual, em que o
simbólico e o metafísico se imbricam para a perfeita materialização de um
estado de ser, revelado de forma substancial pelo próprio narrador-personagem.
Assim entendido, os rituais de passagem,
a que Riobaldo se submeteu, implicaram mudanças metafísicas profundas em sua
essência, a ponto de, a cada etapa de sua existência, atribuírem-lhe um novo
nome, expressão de um novo ser preparado para exercer funções sociais
impossíveis de desempenhar sem que passasse por esse processo. Mas, no momento
que Riobaldo se propõe cristalizar a existência em linguagem, além de reviver
os ritos por que passou, assume a perfeita acepção ontológica de ser, porque
passa por verdadeira logofania, uma vez que a linguagem, para ele, torna-se instrumento
de existência e de essência, de substância de homem e de humano.
Aqui impõe-nos observar que se Riobaldo
se mantivesse apenas no nível ôntico do existir, ele se revelaria apenas como
homem pertencente à humanidade e, portanto, situado no nível do ente. Mas, como
foi além e se instituiu como humano, à medida que empreendeu viagem ao interior
de si mesmo e elevou-se à condição de ser, conquistou aquele substância
responsável pela definição de um estado ontologicamente diferenciado de quem
apenas vive em humanidade. Essa situação de ser, entendido como essência do
humano, requer, para se revelar, uma linguagem igualmente diferenciada, a ponto
de também assumir feições metafísicas.
Assim, de nada lhe adiantaria partir de
um princípio filosófico-teológico profundo que envolve a existência do bem e do
mal para chegar à conclusão de que o mal é inerente ao homem, se não houvesse
se convertido em linguagem. É exatamente essa consciência de estar se
transformando em linguagem que faz de Riobaldo uma personagem singular.
Exatamente por isso, sabe que narrar a profundidade da existência requer,
também, uma linguagem original, como se fosse a palavra primeira do ser, pois,
como ele mesmo o diz,
A lembrança da vida da gente se guarda em trechos
diversos, cada um com seu signo e sentimento, uns com os outros, acho que nem
não misturam. Contar seguido, alinhavado, só mesmo sendo as coisas de rasa
importância.
Esse
narrar desalinhavado, fragmentário, constitui uma imposição do discurso de um narrador
que se sabe perquirindo as razões do existir e, sobretudo, erigindo a
identidade de um ser em busca da substância do humano. Sobremodo,
essa forma de narrar caótica materializa o estado de angústia por ele vivido,
pois, como diz Heidegger, A angústia nos corta a palavra. Pelo fato de o ente em
sua totalidade fugir, e assim, justamente, nos acossa o nada, em sua
presença, emudece qualquer dicção do “é”. No caso específico de Riobaldo, em decorrência de narrar o vivido, esse
corte da palavra implica cortar a seqüência dos acontecimentos, porquanto se
encontra em o real estado de ente. A dicção do ser, do é, da personagem, muito
significativamente, só ocorre ao final da narrativa. Justamente por isso, ele,
enquanto narrador, confirma outra assertiva de Heidegger, quando diz que O fato de nós procurarmos muitas vezes, na
estranheza da angústia, romper o vazio silêncio com palavras sem nexo é apenas o testemunho da presença do nada.
Que a angústia revela o nada é confirmado imediatamente pelo próprio homem
quando a angústia se afastou. Na posse da claridade do olhar, a lembrança
recente nos leva a dizer: Diante de que e por que nós nos angustiávamos era “propriamente”
– nada. Efetivamente: o nada mesmo – enquanto tal – estava aí.
Em Grande sertão: veredas, entretanto,
não são as palavras que estão sem nexo, como ocorre com a linguagem caótica e,
sobretudo, com a bestialógica, verificadas no romance Ulysses, de Joyce, e na peça A
cantora careca, de Ionesco, mas a própria narrativa é que se mostra desconexa,
como se cada seguimento se compusesse de grandes palavras que materializam estados
de ser, em que o narrador tem como meta ultrapassar o próprio nada. Esse
procedimento narrativo, além de constituir a identidade de Riobaldo, à medida
que ele se converte em linguagem, ainda eleva o discurso à uma dimensão
metafísica, resultando da conjunção direta com o ser do narrador-protagonista.
Para
revelar-se na inteireza do ser, Riobaldo não se contenta em transformar-se em
linguagem, mas a explora, desde dentro, à medida que sua narrativa, além de
constituir-se relato de ser humano, é, também, reflexão sobre a própria
linguagem, pois ela tem de encerrar a essência do ser e desvelá-la ao suposto
ouvinte, ao leitor e, sobretudo, ao próprio narrador que sente a necessidade de
mostrar-se para si mesmo. À angústia do existir se ajunta, nesse caso, a
angústia de revelar as coisas importantes de uma existência que se fez sob a
ótica de um ente que se queria ser, como verificamos nesse excerto:
Eu queria decifrar as
coisas que são importantes. E estou contando não é uma vida de sertanejo, seja se for jagunço, mas a matéria
vertente. Queria en tender do medo e a
coragem, e a gã que empurra a gente para fazer tantos atos, dar corpo ao suceder. O que induz a gente para
más ações estranhas, é que a gente
está pertinho do que é nosso, por direito, e não sabe, não sabe, não sabe! (1995, 68-69)
As intenções de Riobaldo são claras:
narrar a vida de sertanejo, seja se for jagunço
não tem importância, somo se isso fosse o natural da existência; mas a matéria vertente, ou seja, aquilo
que sai de dentro e desde dentro, a substância do humano, na mais profunda
concepção metafísica. Não é sem razão que o narrador empreende um viagem, uma
travessia, naquele sentido hebraico de nasa', (sn, mergulho dentro de si mesmo, pois sua
linguagem que, em essência, é ele mesmo, é a matéria vertente do ser. E essa
matéria constitui-se exatamente daqueles elementos inerentes à condição humana,
como o medo e a coragem. A coragem
aqui não se refere apenas à disposição de enfrentar as adversidades da vida
jagunça, mas a pertinácia imprescindível para ele ultrapassar a condição de
ente e inserir-se na esfera do ser, a que se acessa apenas mediante a conquista
da substância do humano.
Nesse afã de narrar o que realmente importa, o
de dentro do ser, o vocábulo gã
assume uma semântica singular, à medida que se refere tanto à multiplicidade
dos impulsos por que o ser é movido, quanto ao ímpeto, à gana que impulsionam o
narrador à prática de atos, às vezes, maus, para poder descobrir o verdadeiro
sentido do existir e, sobretudo, do ser. Gã
é, portanto, uma força incontrolável que tende para o mal e para o bem,
dependendo do sentido que se queira imprimir à existência, notadamente aquele
que leva a pensá-la em profundidade, pois, como o próprio narrador o revela,
são elas as coisas que formaram o passado
para mim com mais pertença:
Sendo isto. Ao
dôido, doideiras digo. Mas o senhor é homem sobrevindo, sensato, fiel como papel, o senhor me ouve, pensa e repensa, e
rediz, então me ajuda. Assim, é
como conto. Antes conto as coisas que formaram passado para mim com mais pertença. Vou lhe falar.
Lhe falo do sertão. Do que não sei. Um grande
sertão! Não sei. Ninguém ainda não sabe. Só umas raríssimas pessoas -e só essas poucas veredas, veredazinhas. O
que muito lhe agradeço é a sua fineza de
atenção. (1994, 69)
Essa
mais pertença constitui exatamente o sertão que assume, nesse momento, a
acepção de ser-tão, entendido como a parte essencial do ser, que tem de ser pensada e repensada, porque razão
fulcral do existir sendo. Exatamente por isso, é que Riobaldo vai falar do que
ainda não sabe, como se ainda não tivesse pensado e nem sido. Mas que, ao ser
pensado, permitir-lhe-á falar de um grande sertão, porque entendido não na
dimensão geográfica de espaço e de viagem física, mas na esfera do ontológico,
em que o ser é.
Assim,
a reiteração do verbo falar, considerando o aspecto teosófico que o envolve,
assume uma conotação especial, à medida que falar implica soprar e, portanto,
repetir a fala primeira dos deuses, em que sopraram as coisas. Assim, ato de
falar é a prova maior de o homem ser, porque, nele, extravasa a sua essência e,
em decorrência, afirma a própria identidade existindo e sendo. Justamente por
isso, Riobaldo fala do sertão, ou seja, do espaço em que ele vive e, sobretudo,
do espaço em que ele é, mediante um mergulho dentro de si mesmo, já que se
conforma à perspectiva do homo viator,
ou seja, daquele que viaja dentro de si mesmo e, em decorrência, dentro da
fala, dentro da linguagem.
Para
empreender essa viagem, entretanto, é necessário conhecer-se. Por isso, poucos
se colocam em viagem, porque ainda não se sabem, e esse viajar é um ato, implica
a plena consciência de se estar sendo. Por isso, Só umas raríssimas pessoas − e só essas poucas veredas, veredazinhas o
sabem. A imagem das veredas traduz bem esse pouco saber-se do ser sendo de que
fala o narrador, pois elas representam um momento de sertão em que o verde
predomina, ou seja, um momento em que o ser se diferencia do ente, das coisas.
Como poucos chegam a diferenciar-se, porque a maioria apenas passa pela
existência, mantendo-se somente no nível do existir, também o uso da palavra no
diminutivo, para colocar o ser no estado de matéria e, não, na dimensão metafísica.
Além
disso, veredas significa trilhos,
caminhos estreitos por que se anda pelo sertão e pelo ser tão. Ora,
considerando que o caminhar dentro de si mesmo é um caminhar estreito, difícil
e raro, elas representam esse estado de ser tão, em que mostram as dificuldades
e a raridade de ser em essência. Assim entendido, o diminutivo veredazinhas, ao diminuir o espaço
físico, sugere também a precariedade do espaço metafísico do ser e a raridade
de o ser ascender à essência.
Não
sem motivo, o narrador fala. Emprega a primeira pessoa do singular, do presente
do indicativo, porque possui consciência plena de seu narrar, de estar registrando
uma história, não como alguém que apenas fala do outro, mas como alguém
que exerce a função de sujeito, de ser
sendo. Nesse caso, o eu que fala, ao contrário, por exemplo, do eu de Mersault,
é um eu que se afirma, que se mostra em uma dimensão ontológica, pois se sabe
em transformação e em conformação de linguagem. Essa diferença de ser e de ente,
ou seja, de revelar-se e de ser revelado, de ser fala de si mesmo e de ser fala
do outro, mesmo falando de si mesmo, como ocorre em O estrangeiro, de Camus, ou como se verifica com o eu do narrador
de A
terceira margem do rio, percebemo-la,
também, nesse trecho, em que o narrador diz claramente que as pessoas não estão sempre iguais, porque em constante construção
ou em constante não se fazer, porque destituídas da consciência de sua
historicidade e, em conseqüência, da necessidade de ser linguagem:
O senhor... Mire veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda
não foram terminadas – mas que elas vão
sempre mudando. Afinam ou desafinam.
Portanto, as pessoas que ainda não foram
terminadas são aquelas que estão sempre em vir a ser, como o requer o estar
no mundo para o ser, ou aquelas que nunca estarão terminadas, porque sempre em
estado de ente, de objeto, posto que incapazes de empreender a luta necessária
para a conquista da essência. São aquelas que mudam, mas sempre para menos,
aquelas que desafinam. O desafinar-se implica, durante o narrar, não
assumir a linguagem e, em decorrência, ser fala e linguagem de outro, como
ocorre, necessariamente, nas narrativas de terceira pessoa, ou de narrador
demiúrgico.
Por
outro lado, as pessoas que afinam, são aquelas que, como o faz Riobaldo,
lutam para ser, para conquistar a substância do humano, e, por isso,
registram-se na história mediante o cristalizar-se em linguagem, assumindo a
subjetividade da narrativa, a fim de afirmar-se na existência e na essência.
São os narradores que, como Riobaldo, falam o ser tão de si mesmos. Não sem
razão que ele repete, à exaustão, que Viver é muito perigoso, porque,
quem não se converte em linguagem não cristaliza o seu ser.
É
consoante essa visão ontológica da linguagem, do revelar-se, que Riobaldo teme
o ato de falar, o ato de converter-se em palavra, mesmo sabendo da necessidade
de desvelar-se, pois entende bem que falar para si mesmo é o mesmo que não
falar, porque o monólogo, nestas circunstâncias, converte-se em uma espécie de
autofagia, como se ele engolisse a si mesmo, enquanto que falar para o outro
transforma-se em revelação do ser, em epifania:
Não sei, não sei. Não devia de estar relembrando isto, contando assim o sombrio das coisas. Lenga-lenga! Não
devia de. O senhor é de fora, meu amigo mas
meu estanho. Mas, talvez por isso mesmo. Falar com o estranho assim, que bem ouve e logo longe se vai embora, é um
segundo proveito: faz do jeito que falasse
mais mesmo comigo. Mire veja: o que é ruim, dentro da gente, a gente perverte sempre por arredar mais de si. Para
isso é que o mundo se fala?
A verdadeira presença do outro, real ou fingida, como percebemos pela
trecho acima, é imprescindível, pois, mesmo parecendo que se esteja falando para si mesmo, uma vez
que o ouvinte logo longe de se via embora,
está se mostrando, como o requer a própria essência da linguagem. O falar para
alguém, além disso, constitui uma forma de arredar
mais de si aquilo que não presta e que faz parte da essência mesma do ser,
mas que o falar possibilita anular, mesmo que seja de forma fingida, pois que o
que interessa é o revelar-se, o converter-se em linguagem e, não, o
esconder-se, o emudecer-se, possível quando não se está vivendo o humano em
plenitude. Justamente por isso, narrar não é fácil, uma vez que, nas circunstâncias
de uma narrativa existencialista, de cunho metafísico, é preciso achar o rumozinho forte das coisas, caminho
do que houve e do que não houve. A colocação da palavra rumo no diminutivo,
no caso, em vez que de diminuir-lhe a importância, avulta-a, uma vez que
resulta do ato de remexer o vivido longe
alto, com pouco caroço, querendo esquentar, demear, de feito, mue coração,
naquelas lembranças:
O senhor sabe?: não acerto no contar,
porque estou remexendo o vivido longe
alto, com pouco caroço, querendo esquentar, demear, de feito, meu cora- ção, naquelas lembranças. Ou quero enfiar a
idéia, achar o rumozinho forte das coisas,
caminho do que houve e do que não houve. Às vezes não é fácil. Fé que não é.
Não se trata, porém, de um vivido
qualquer, a despeito de possuir pouco caroço, mas de pensar a existência e
enfiar-lhe a idéia, ou seja, o pensamento de si mesmo sendo e existindo,
transposto para a linguagem.
Mas, a maior evidência de que a
personagem-narradora se transformou em linguagem, vemo-la no momento em que se
descobre humano, em decorrência de o mal fazer parte da essência mesma da
humanidade. Nesse instante, todas as suas dúvidas se dissipam, porque o mal é
intrínseco ao ser humano e, não, algo que existe fora dele, personificado na
figura do Diabo, como ele mesmo o diz:
Nonada. O diabo não há!
É o que eu digo, se for... Existe
é homem humano. Travessia.
A assunção da linguagem e da certeza de sua identidade de humano
se materializa na afirmação peremptória: É o que eu digo, se for..., uma vez
que mesmo aquela forma inusitada de narrar, indo-voltando-indo, agora se torna
incisiva, confirmando tudo que fora narrado em profundidade de forma
desalinhavada, como se o narrador, imitando o fecho de um discurso, dissesse: Ait, Disse,
ou seja, nada mais resta a se dizer, se for... Não o fosse, e o romance
não encerraria com um símbolo, que transfere a linguagem para um nível cósmico,
porque substantivada em infinito. A linguagem semiótica, no caso, constitui a
essência de tudo que Riobaldo narrou e, em decorrência, a manifestação de sua
essência, de sua substância de humano, convertendo-se em palavra de verdade e
da verdade, de identidade ôntica e ontológica do narrador-personagem.
BIBLIOGRAFIA
CASTRO,
Manuel Antonio de. O homem provisório no Grande Ser-tão.
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