ASSALTOS
José Fernandes*
Assalto é uma palavra forte na língua portuguesa: “ataque repentino com intuito de roubo”; “ato ou efeito de exorbitar na cobrança de preços”. Não deveria existir, não fosse a língua, a despeito de sagrada, instrumento com que os homens se comunicam e, sobretudo, se manifestam. Em decorrência, incorpora a miserabilidade de se pertencer à humanidade, uma vez que acepção do vocábulo “ato” implica a prática de uma ação consciente e voluntária, mesmo que exercida sob o amparo da lei, que visa, sempre, ao benefício de quem já é beneficiado, porquanto legisla em proveito próprio. Talvez seja por isso que em terras brasis ocorram assaltos, entendidos como extorsão, a cada milésimo de segundo.
– Não sei bem aonde você quer chegar, mas a razão é toda sua! Imagina que, dia desses, fiquei sabendo que o veículo que uso como condução, no México, custa um terço do que aqui se paga. É uma forma de assalto; e assalto oficial, ataque empreendido ao cidadão para engordar as pantugruélicas burras do governo.
– Se, pelo menos, vivêssemos em país serio, em que sentíssemos e presenciássemos a aplicação das exorbitantes taxas de imposto, talvez nos contentássemos com esses assaltos. Se tivéssemos um sistema de saúde exemplar, em que os médicos ganhassem de forma condizente com a responsabilidade inerente à atividade médica e, sobretudo, com o tempo que dedicaram ao estudo. Se os hospitais do SUS fossem realmente equipados para efetuarem tratamentos requeridos pela população. Se houvesse número suficiente de profissionais para o pronto atendimento ao paciente-contribuinte; se houvesse leitos que atendessem à demanda.
– Sob certo sentido, a aceitação dessa situação execrável em relação ao assalto e à aplicação dos impostos encontra-se na palavra paciente. Somos um povo paciente, cordeiro, como a rã atraída pela serpente. Por isso, deixa-se engolir pacificamente pelos impostos e, sobretudo, pela corrupção que crassa em todos os níveis de governo.
– Pois é, até a Alto Rio Doce, em que nasci e que julgava terra de gente honesta, essa maldição chegou. Dia desses, a casa do presidente da câmara foi invadida pela polícia federal, com mandado de busca e apreensão. As razões, formação da quadrilha dentro da casa de leis!
– Sob certo sentido, foi bom! Houve na terra de Ângelo Belo e Maria da Conceição passeatas de protesto contra a corrupção. Coisa inédita naquela pacata cidade encarapitada nos lombos da Mantiqueira.
– O problema é que os corruptos perderam inteiramente a vergonha. Se lerem uma crônica em que são criticados, são capazes de rir de quem a escreveu! A corrupção é um rio que se engrossa à medida que se dirige ao planalto! Imagina que, dia desses, cheguei ao aeroporto de Brasília à hora do café da manhã, pedi um copo de leite, e me cobraram dez reais. Ora, se um pacote custa três reais e contém cinco copos que são vendidos por dez, imagina o lucro da lanchonete! Quando reclamei, a caixa me olhou assustada, como se eu fosse um alienígena! Depois, aquele riso de desprezo, como se eu fosse um lixo que lhe atravancasse o caminho.
– Certamente, ninguém reclama! Acostuma-se com os assaltos diários, que, mesmo diante do absurdo, não se reage. É a maldita paciência! Estamos todos na UTI.
– O pior que, em vez de o país melhorar, porque o seu povo melhorou, piora-se a cada dia, a cada hora, a cada segundo.
– É realmente uma maldição, porque o câncer da laringe dessa doença, nunca passa por tratamento quimioterápico. Nem mesmo radioterapia! Quando se retira uma apostema grudada às tetas da nação, ocorre apenas um intercâmbio, porque o sentido de parceria permanece, e o tumor se põe novamente em ação, com maior voracidade.
– Há até quem se deseja infectar! Em outubro, tive de ir a uma cidade-sede da maior doença que está infestando esse país. Qual não foi a minha surpresa, notar que há, no hotel, um painel de preços provisório e um a que chamam de previsão futura. Uma diária para solteiro que custa cento e noventa reais – já é inadmissível – está no painel do futuro por seiscentos. Olha que era um hotel apenas mediano! Já pensou como não deve e deverá ser o preço das constelações?
– Gostaria de saber o que nos ocorrerá, em termos econômicos, até 2014! Depois, com todos os fiascos possíveis e imaginários, certamente haverá assaltos a cada centímetro de nossas vias públicas.
– Atemorizam-me mais aqueles amparados por leis que embriagam a nação, a fim de que o populacho seja cada vez mais paciente! Sobretudo, atemorizam-me aqueles que vêem seus nomes estampados em jornais e revistas, em decorrência da rapinagem que praticam, e, além de não se abalarem, ainda dizem que irão calar a única instituição que ainda pensa e vê nesse país de cegos por conveniência.
– Quero ver-lhe a paciência do poviléu nos corredores dos hospitais, se ainda os houver, após 2014.
– Garanto-lhe que nada acontecerá, porque o povo vive de engodo! E gosta, porque quem não reclama, consente, O pior, entretanto, que, nesses brasis, a paciência ante as desgraças cultivadas pelos corruptos, advém de uma doença incurável: frieira em meio às orelhas ou panarício no meio da testa!
– Depois, os larápios estão vacinados contra vergonha! Todas as acusações que lhes são imputadas soam-lhes aos ouvidos como elogios! E vivam os assaltos de todas as ordens e tamanhos! Miserere nobis, Domine!
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