TERRA NATAL
José Fernandes
Nasci à beira de São José de Botas,
exprimido entre mantiqueiros montes.
Meu choro se misturou aos trovões
e escorreu bustrofedicamente pelos
riachos que caminham pelas estradas
de Alto Rio Doce que assiste, altaneira,
ao nascimento do Rio que leva e enleva
o ouro de Minas aos vôos Espírito Santo.
Pequeno ainda, atravessei outros rios,
naveguei nas ondas de outras serras,
fugi da língua de trapo que me via
apenas assassino de minhocas a comer
o pão que o diabo amassou com o rabo
e ouvi o silêncio de outros oráculos
na voz de sibilas a inspirarem o lobo
direito do meu hipotálamo.
Orientado pelo ferrão que trazia
ao ombro, o destino me candeou para
outras terras que arei com a paciência
do boi e com a inteligência do burro
que se não deixa atolar nos atoleiros
desse pantanal que se vai convertendo
em corixos grávidos de sonhos alevinos.
Depois, encontrei a fonte das letras
e passei a abeberar-me de suas águas.
Engasguei-me algumas vezes no beabá,
mas aprendei a encher cântaros diversos
com verbos que me conjugam de versos.
Alto Rio Doce será sempre meu tempo
menino engolindo morros, escorrendo
cachoeiras e ouvindo os ecos do silêncio
passeando pelos seios das montanhas.
Alto Rio Doce sempre me lembrará
a proteção sussurrada aos ouvidos:
– Vá com Deus e a Senhora das Graças,
e que o Divino Espírito Santo de Deus
guie sempre os teus passos! – Amém!
Alto Rio Doce está dentro de mim,
guardada na minha retina de olhos
fundos, rasos de lágrimas e ontens!
Mas, não estou dentro de Alto Rio
Doce, mãe que não conhece o filho
ou o abandonou na curva do tempo
que se perdeu na poeira da estrada
dessa viagem tão longa e tão curta
de existir na terra, para a terra; mas
pela terra desterrado.
14-1-2012
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